quinta-feira, 29 de março de 2007

Despedida

Sete menos um quarto. Cheguei antes da hora combinada mas pode ser que tenha sorte...Tentei rodar a chave mas a fechadura não cedeu. Tentei novamente mas não deu sinal de fraqueza.
Trocou a fechadura, tinha de me sujeitar àquela humilhação. As mulheres são mesmo ... são todas assim. Um gajo dava-nos cabo dos cornos mas elas dão-nos cabo da cabeça. E sabem sempre onde atacar, nunca há cá kicks ou upercuts, é sempre em cheio, no centro, onde dói mais.
Ainda demorou mas lá veio abrir a porta. Um só movimento. Abrir a porta, afastar-se e apontar para o sofá. Mal dava para ver na penumbra que ela tinha o vestido verde. Não era uma roupa ao acaso, ficava linda com ele. Já se esta a ver que queria ficar por cima e sair em grande. Não me importei mas olhei demoradamente o contorno do peito, mais do que queria. Ela deu conta e lá no fundo ficou contente. Contente talvez seja uma má palavra! Ficou feliz. Mas fingiu não se importar, com aquele tão conhecido desprezo feminino. Apontou novamente para o sofá e desta vez segui com o olhar o braço até ao indicador. Lá estava em cima do sofá, onde tantas vezes estivemos juntos, a caixa com tudo o que era meu e estava em casa dela, tudo o que lhe dei e até algumas coisas que compramos juntos. A nossa vida de ano e meio. Uma caixa de cartão.
Perguntei se era só aquilo e ela acenou em confirmação.
- Pensavas que eram mais coisas?
- Sim. Pensei.
- Não te preocupes que não fiquei com nenhuma merda tua nem nada que te diga sequer respeito.
- Calma. Não precisamos de acabar assim.
- Não?
- Não. Podemos voltar a tentar...
- Como?
- Podemos voltar a tentar.

Os olhos ficaram maiores e brilhantes, e depois percebi que afinal não ia ter sorte. Não valeu a pena ter vindo mais cedo, não ia ter direito àquela última volta de despedida de que toda a gente fala. Será que alguém teve direito a ela?
- Sai daqui.
- Calma.
- Calma. Só sabes dizer isso? Sai daqui imediatamente! Sai!
Agarrei-lhe um braço e depois o outro. Tentei roubar um beijo mas só consegui uma ferida no lábio. Não foi mau. Há feridas que valem a pena e sempre era uma recordação.
- Larga-me! Besta!
Soltei-a, ela esfregou um pouco os pulsos e dirigiu-se para a porta e apontou novamente mas agora para o corredor do prédio, tentando manter-se inteira. Apanhei a caixa e fui para a porta.
- Queres mesmo acabar?
- Tu deves estar a brincar comigo. Sai da minha casa imediatamente! Nunca mais te quero ver.
- Adeus.
- Adeus, filho da puta.
Sai e ouvi a porta a bater num estrondo. Sete horas. Ainda dá tempo de ir a casa tomar um banho e trocar de roupa para ir para a despedida de solteiro. Pela noiva ainda se espera, mas pelo noivo...

quarta-feira, 21 de março de 2007

A vida fabulosa de Xana Darque

Foi no restaurante do Hotel Dolma que o nosso repórter encontrou a nova estrela em ascensão, para uma conversa informal onde são revelados em exclusivo alguns pormenores da vida desta diva do ambiente social português. Fique para descobrir.

PCN: Quando considera que começou exactamente a sua entrada no ambiente social?
XD: Bem...isso já foi há algum tempo...
PCN: Quando exactamente?
XD: Foi há cerca de dois anos. Nessa altura morava ainda em Viana do Castelo. Uma terra fascinante.
PCN: E o que aconteceu? Pode partilhar isso com os nossos leitores?
XD: Claro. Não é nenhum segredo. Nessa altura eu era um animal de festas, abusava um pouco do álcool e dos comprimidos. Foi uma altura especial para mim e nunca estive tão magra... (risos). Comecei a ter algumas alucinações.
PCN: Alucinações?
XD: Sim. A principio eram coisas poucas. Via objectos e pessoas que desapareciam sem deixar rasto. Coisas leves. Mais tarde comecei a ouvir vozes e as alucinações eram mais persistentes.
PCN: Isso não a incomodava?
XD: A mim? Não. Até fiz algumas amizades imaginárias (risos). Uma dessas foi a grande responsável por um dos meus melhores trabalhos!
PCN: O assassinato da Cabana?
XD: Sim. Foi realmente libertador.
PCN: E a sua família como reagiu a isso?
XD: Reagiu bem. A minha família sempre esteve no negócio da carne. O meu irmão goza até de uma certa fama local.
PCN: Fama local?
XD: Sim. É conhecido como o talhante de Viana.
PCN: Sim. Claro já ouvi falar dele. E os seus pais?
XD: Não conheço a minha mãe. Desapareceu quando eu era miúda. O meu pai actualmente esta reformado e cuida de uma pequena horta biológica junta a estrada. Adora ver passar os carros...
PCN: Ver passar os carros?
XD: Sim... eu também não percebo muito bem...mas acho que ele já tem idade para fazer o que lhe apetecer.
PCN: E os seus amigos como reagiram a este seu novo lado?
XD: os que me conheciam realmente bem não ficaram admirados os outros ficaram um pouco surpresos. No final de contas perdi alguns amigos que não conseguiram lidar bem com este meu novo estatuto social. Mas ganhei outros. Pessoas muito divertidas e influentes.
PCN: Influentes?
XD: Sim. Algumas pessoas com poder mas como é óbvio não vou citar nomes. Acho que seria indelicado.
PCN: E o que tem feito ultimamente?
XD: A minha última performance foi na Serra da Estrela. Atenção que estou a revelar isto em primeira mão. Ainda não foi lançado para os media. Foi um trabalho de grupo com alguns conhecidos e envolveu a famílias inteiras, neblina intensa e muito, muito gelo. Foi absolutamente fantástico. Acredito mesmo que atingi um outro nível.
PCN: E para o futuro?
XD: Sinceramente não sei. Tenho alguns planos. Talvez escrever um livro sobre as minhas experiências mas não sei. Isso já me parece muito batido. Vamos ver para onde a vida me leva.

segunda-feira, 12 de março de 2007

Às quintas

Correr de um lado para o outro, números, previsões, sempre com um sorriso nos lábios e um tique de aceno afirmativo na direcção de um chefe acéfalo ... uma merda! E no final do dia chegar a casa e não ter nada que me estimulasse. Até o sexo já estava na fase rotineira e não havia volta a dar-lhe. Podia tê-la mandado dar uma volta mas só o transtorno de procurar outra, para passadas umas semanas andar no mesmo... e como dizia o outro: “sexo é bom mesmo quando é mau”... Andava nisto há já algum tempo e não via maneira de sair, de escapar desta vida deplorável.
Há cerca de seis meses chegou lá ao escritório mais um funcionário lambe-botas, e, eu de início não vi a coisa com bons olhos – mais um paspalho para eu aturar, como se já não me chegassem estes – mas as coisas mudaram lentamente. Foi-se instalando uma cumplicidade baseada num ódio aquela existência miserável das nove às cinco. Um mês depois ele convidou-me para ir com ele, e, ver como conseguia aguentar os dias... Uma espécie de passatempo que praticava todas as quintas depois de jantar e tomar uns copos. Eu aceitei. Se funcionava para ele também devia funcionar para min.
Nesse dia quando abri a porta de casa era já uma pessoa diferente. Tudo mudou. Comecei a fazê-lo regularmente e a minha vida passou para um outro nível. A primeira a notar foi a minha namorada, que comentava entre suspiros suados que “o sexo nunca tinha sido tão bom”. No trabalho já nada me afectava e eu andava de um lado para o outro contando mentalmente o tempo que faltava para quinta feira. Fomos ficando mais cúmplices, o Alberto e eu, e, por vezes passavam dias sem trocarmos uma palavra. Não valia a pena. Se falássemos era só para falarmos daquilo, e, aquilo era nosso, só nosso. Fui promovido pouco tempo depois, tendo até o chefe elogiado a minha nova personalidade mais forte, mais segura de si. Fingi humildade e continuamos. A vida estava cada vez melhor. Decidi despachar a namorada. Já não tinha nada de novo para oferecer. Arranjei outras. A minha vida mudou. Foi pena aquela última ter conseguido escapar e nos ter denunciado... Foi pena...

terça-feira, 6 de março de 2007

Sete

...dias da semana,
...graus da perfeição,
...esferas,
...pétalas de rosa,
...vezes me tocou,
...ramos da árvore,
...portas de Tebas,
...cordas da lira,
...cores do arco-íris,
...céus,
...lágrimas derramadas,
...estrelas da Ursa Maior,
...mares,
...anões,
...vezes me agarrou,
...pecados mortais,
...facadas,
...não me toca mais.

sábado, 3 de março de 2007

00.04.23

00.00.00 – Avançar calmamente e resignadamente até meio da ponte, olhando, pelo canto do olho, o rio e os seus inúmeros pequenos pontos de luz reflectidos metros abaixo. 00.01.47 – Agarrar com força o metal frio e áspero do corrimão. Sentir a ferrugem em contacto com a pele. Fechar os olhos. Abrir os olhos. 00.02.25 – Fechar os olhos. Respirar fundo. Abrir os olhos. 00.02.29 – Sentir a brisa húmida no rosto. Olhar o rio. Fechar os olhos. Respirar fundo. Agarrar com mais força o corrimão. Sentir a ferrugem a desprender do metal velho e corroído. 00.02.54 – Tirar o sapato direito com o pé esquerdo. Tirar o sapato esquerdo com o pé direito. 00.03.10 – Colocar os sapatos num sítio visível. Endireitar o sapato esquerdo dois centímetros para o lado direito. 00.03.28 – Sentir o frio passar pelas meias. Encolher os dedos dos pés. Agarrar o corrimão. 00.03.35 Subir para o corrimão. 00.03.43 – Agarrar o cabo. 00.03.45 – Olhar o rio negro no horizonte. Fixar um ponto de luz. Respirar fundo. Seguir com o olhar um saco arrastado pela corrente. 00.04.06 – Hesitar. Recordar. 00.04.08 – Olhar para baixo. Olhar para o rio negro. Sentir o coração bater mais forte. 00.04.11 – Respirar fundo. Respirar. Inspirar. Expirar. 00.04.17 – Inclinar a cabeça para a frente. 00.04.18 – Recordar. 00.04.19 – Deixar-se ir. 00.04.20 – Recordar. O sorriso. O Sorriso. A chuva. As luzes. Guinar para a esquerda. O motion blur. Os vidros partidos. O sangue. A mão por cima da dele. O sangue. Os vidros. As sirenes. As luzes. O sorriso. A mão por cima da dele. 00.04.21 – O sorriso. Aquele sorriso. A mão. Aquela mão. A primeira palavra. O primeiro sorriso. O primeiro beijo. As luzes. O grito lancinante: “Cuidado!”. 00.04.22 – Branco. Negro. 00.04.23 – Tarde de mais...