sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Chá das cinco

- Então? Fui a última a chegar?
- Não.
- Quem falta?
- Advinha...
- Oh... Também parece que faz de propósito para chegar tarde.
- Não sejas mázinha Fome... ainda é cedo. O chá ainda não está pronto. E tu sabes que ela demora mas vem sempre, podemos sempre contar com ela.
- Pronto, está bem, já não está aqui quem falou. Precisas de ajuda?
- Não. Vai ter com as outras à sala que eu vou acabar as coisas na cozinha.
- Queres que ponha a mesa?
- Não é preciso, a Maldade já preparou tudo. Ela tem jeito para a “mise en place”.
- Sim, ela tem olho para os pormenores.

- Olá meninas.
- Olá Fome.
- Olá. Podes-te sentar aqui. A Ira disse que esta cadeira era mais resistente e já não deve acontecer o mesmo de semana passada...
- Não comeces...
- Não faz mal, eu sei que estou a engordar, não consigo evitar. Só me apetece comer.
- Tens de fazer dieta.
- Para quê?
- Para ficares mais bonita.
- Com esta idade? Pois sim...
- Estamos preocupadas contigo, só isso.
- Tens feito as análises?
- Tenho. É o costume. Colesterol e triglicerídeos.
- Qualquer dia dá-te uma coisinha má.
- É preferível morrer com doenças...é um bocado triste morrer saudável.
- Não sejas parva...mas se isso acontecer posso ficar com o teu serviço de chá? E os talheres de prata?
- Podes. Eu escrevo no testamento que são para a minha amiga Cobiça, mas olha que vais ter de esperar. Não se livram de mim tão facilmente.
- Não faz mal, eu espero... Olha! Deve ser a Vingança. Vou abrir.
- Obrigado.
- Que trazes aí Ira?
- Brownies.
- Ai que maravilha! Ainda estão quentes. Já sinto o chocolate.
- Que chá preferem meninas? Verde ou Preto?
- Preto.
- Preto.
- Olá. Brownies. Que bom. Já estava com saudades dos teus brownies Ira.
- Já somos duas...
- Ainda bem que os fiz então. Estávamos a decidir o chá. Verde ou Preto?
- Preto.
- Decididamente preto. Uma coisa forte para nos animar.
- Sim.
- Trouxeste o jogo Maldade?
- Já sabes que nunca me esqueço de nada... ia lá deixar o jogo em casa?
- E qual trouxeste.
- Trouxe um novo, “Settlers de Catan”.
- É de quê?
- Estratégia.
- Os meus favoritos.
- Já fui.
- Eu também Fome.
- Ná, é fácil, vão ver.
- Já são cinco. Começamos?
- Sim, sim... que os brownies já estão a implorar que os devore.
- Faz-te a eles Fome.

Reunião de família II

Eu tenho a certeza de que ele me anda a trair com aquela branquela! Tenho a certeza! Sempre reparei nos olhares prolongados, no humedecer dos lábios, nos cumprimentos demorados... mas ignorei. Nunca pensei que ele fosse fazer uma coisa dessas ao primo. Ele matava-o! Desde que ele se foi embora as dúvidas instalaram-se. Ele, ora ignora-me dias a fio, ora vai para o roupeiro e fica a olhar para os Sapatos durante horas. Ela é capaz de tudo. Bem sei como ela explorou aqueles anões estes anos todos, e agora sem dinheiro, sem nada, é capaz de tudo para voltar para a sociedade. Detesto que ela venha cá ao palácio mas ele insiste, dizendo que ela é família. Sabe que eu não gosto e ainda me obriga a ser eu a fazer o convite! Odeio-a. Não suporto vê-la assim tão magra, tão elegante. Deve ser uma daquelas dietas novas. Eu não consigo manter nenhuma, cada vez me apetece comer mais e cada vez estou mais gorda. Ela deve é passar fome, só pode ser isso, porque aquela boa forma na idade dela não é natural! Se ao menos eu conseguisse deixar de comer.
Lá vem ela e ele já a está a comer com os olhos. Olhem só: começa por baixo e vai subindo discretamente, discretamente. Qualquer dia apanho-os! Eu bem mando os meus espiões segui-lo mas eles nunca voltam. Qualquer dia não há um único rato na cidade. Ainda bem que a madrinha me deu umas dicas e eu lá consigo transformá-los em criados fiéis. Não confio em mais ninguém nestes assuntos tão particulares. Mas custa-me, fico sempre muito cansada. E com fome. A magia exige muito de mim.
Oh, ohh, lá está o aperto de mão suave, prolongado, suave, quase sensual... Eu vou descobrir. Já estou com fome só de me enervar...e ainda por cima depois de jantar temos o concerto de flauta daquele músico estranho e enfadonho. A música é completamente banal mas o meu marido adora-a. Eu por outro lado, sempre que ouço aquela flautinha insípida encho-me de tédio e de fome, e não é a jantar duas vezes seguidas que eu vou recuperar a minha silhueta!
Lá vão eles... conversinhas, segredinhos e risinhos. Eu vou apanhá-los, e, quando os apanhar eles vão ver! Vou pôr em prática mais um ou dois feitiços que a madrinha me ensinou... Ah! Javali assado, adoro javali.

Miséria e podridão

Conseguia sentir as térmitas a corroer por dentro a perna, escavando túneis e zunindo não o deixando dormir.
Já tinha visto um buraquinho ou outro junto ao calcanhar escurecido, e, aquele presságio de pó acumulado em cima do cartão humedecido. Naquelas manhãs cinza arrumava tudo o mais rápido possível para ser um dos primeiros a chegar e ter direito a alguma comida ainda quente. Não era propriamente por fome mas para sentir o calor que se esfumava e embatia naquele rosto velho, calejado e frio. Era a melhor coisa do mundo. Havia noites, e havia dias, em que sonhava com aquela água de lavar café a esfumar e a envolve-lo em fios de calor como uma aranha a envolver a sua presa em delicados fios de seda. Fazia lembrar... Fazia lembrar outros tempos que recordava com algo que ele sabia ser diferente da saudade mas não sabia bem definir. Não encontrava um bom termo e depois esquecia enquanto terminava o pequeno almoço rarefeito.
Caminhava ao ritmo de um compasso oco que ressoava em todo o corpo. Ele sabia que isto era o princípio da podridão, a miséria já tinha chegado há muito.