sábado, 12 de maio de 2007

Corvos negros

É triste ter uma semi-existência camuflada de vida.
Agora chega quase a ser natural, já não fazemos aquele esforço para fingir que vivemos e sentimos através de um outro.
É tão bom quando podemos ser nós próprios. Quando as luzes se apagam, deixamos o nosso corpo e gozamos em pleno esta nossa existência eterna.
Se estiverem atentos podem ouvir o bater suave das asas como as dos pássaros aprisionados.
No fundo, é isso que nós somos. Pássaros enjaulados. E batemos as asas e tentamos voar, pairamos no ar.

Presos naquela jaula orgânica. Invólucro desconfortável, privativo dos sentidos e do espaço, que nos prende ao chão com algemas invisíveis.
Escravos. É isso que nos somos. Escravos condenados a vigiar seres insignificantes e sem glória. Velar por eles.
Vagueamos por entre a multidão. Somos aquele que vos fixa sem razão aparente, somos aquele que vos olha de relance. Somos aquele que vos vigia, somos aquele que vos impede. Somos aquele que vos ajuda, somos aquele que vos perturba. Somos aquele que vos inspira.
Amas sofisticadas. Anjos da guarda. Anjos de companhia. Somos corvos negros ansiando a liberdade.

terça-feira, 1 de maio de 2007

O Sr. Nate e o Sr. Benje*

O Sr. Nate e o Sr. Benje eram vizinhos, quer dizer, não eram, ou melhor eram mas sem o serem! Moravam na mesma cidade mas em lados opostos. O Sr. Nate morava na parte fina da cidade, com os seus casarões de séculos passados que apenas se abriam para sangue-azulados. Ou vermelho vivo, vivo como o dinheiro.
O Sr. Benje vivia no extremo oposto como ainda se devem lembrar, numa viela escura a transpirar de trabalho e orgulho. Os caminhos destes dois homens nunca se tinham cruzado até ao dia 25 de Março de 1930, altura em que o destino moveu as suas teias. O Sr. Nate tinha negócios a tratar, e, o Sr. Benje contas para pagar, pelo que embarcaram no mesmo barco rumo a locais exóticos e desconhecidos.
A viagem começou calma, com dias de sol e pouco vento, e, os passageiros aproveitavam para gozar um pouco de sol, sempre resguardados, é claro. Sol em excesso não é bom para ninguém e todos sabiam disso.
O barco era como uma pequena cidade por isso o Sr. Nate e o Sr. Benje ficaram novamente em lados opostos. Um na parte fina e outro na parte... bem, não tão fina! Aqui também não havia misturas, embora todos se cruzassem e apanhassem o mesmo sol de final da tarde, a noitinha todos regressavam para os seus respectivos aposentos. Na verdade, quase todos. Alguns pares de amores escondidos batiam asas mas isso é outra história. Voltemos ao Sr. Nate e ao Sr. Benje!
Ao terceiro dia de viagem o tempo foi modificando e as nuvens foram chegando, chegando devagarinho até se instalarem definitivamente e taparem o Sol por completo. Depois das nuvens chegou a tempestade e essa não foi chegando devagarinho...simplesmente chegou!
Chegou e sacudiu o barco com força, fez subir as ondas e virar o barco. O Sr. Nate caiu ao mar na sua cadeira enquanto lia um dos seus romances, e foi-se afastando assim a flutuar, sentado, debaixo de chuva e trovoada, sem ninguém dar conta. O Sr. Benje ia a correr para o seu quarto (porque nunca tinha gostado muito de trovoada que o fazia ficar com pele de galinha e arrepiava os caracóis da parte de trás da cabeça) e numa sacudidela caiu também ao mar agarrado a um guarda chuva, e, lá se foi afastando. O Sr. Benje abriu o guarda chuva, virou-o ao contrário e subiu a bordo. Passaram dois dias e três horas a navegar em águas desconhecidas até irem desaguar num pequeno monte de areia com algumas palmeiras e um riacho que a atravessava completamente a meio.
Chegaram os dois a ilha quase ao mesmo tempo: um sentado na sua cadeira de descanso a ler um romance e o outro a dormitar sentado no guarda chuva. O Sr. Nate desceu de sua cadeira, olhou em volta, atravessou o riacho e sentou-se numa rocha verde-acinzentada. O Sr. Benje foi a correr atrás dele mas quando tentou atravessar o riacho o Sr. Nate perguntou:
- O que pensa que vai fazer?
- Vou ter consigo, disse o Sr. Benje.
- Ai não, não vai. Este é o meu lado da ilha, respondeu o Sr. Nate enquanto o olhava de alto a baixo. Além do mais eu não me dou com seres da sua espécie, acrescentou sem o olhar nos olhos.
O Sr. Benje ficou tão indignado! Nunca tinha sido tão humilhado na vida. Ele que sempre fora um trabalhador honesto! Deu meia volta e murmurou entredentes:
- Não perdes pela demora!
Cada um fez um abrigo no seu lado da ilha e uma pequena fogueira. O Sr. Benje fez tudo mais rápido mas o Sr. Nate lá se desenrascou. Assim ficaram três dias a andar de um lado para o outro. O Sr. Nate acabou o romance e encontrou um baralho de cartas no seu casaco que resistiu a tempestade e entretinha-se a jogar solitário, o Sr. Benje ia ampliando a casa. Ao fim de uma semana já não fazia obras e o Sr. Nate já não suportava a ideia de jogar cartas sozinho. Ao nono dia foi até ao riacho e gritou.
- Quer jogar uma partida de cartas?
- Quem? Eu? Está falar comigo? Perguntou o Sr. Benje.
- Sim! Vê aqui mais alguém? Quer ou não quer jogar cartas? Perguntou irritado o Sr. Nate.
- Não obrigado. Eu não jogo cartas com pessoas da sua espécie, respondeu o Sr. Benje com um sorriso.
O Sr. Nate olhou-o com um ar de completa admiração e voltou para a sua pedra de jogo. Não houve mais troca de palavras mas não se preocupem meninos, eles não ficaram sozinhos. Um ficou com o ódio, o outro com a vingança.
*conto infantil

terça-feira, 24 de abril de 2007

O cavalo e o cão

Na minha rua, eu e os meus vizinhos, temos assistido a uma amizade, no mínimo estranha. Um cão e um cavalo. Surgem do nada, descem a rua e dirigem-se aos terrenos vazios. O cavalo pasta sob a vigilância atenta de um velho pastor alemã e ambos apresentam aquelas peladas de abandono. Um não vai para lado nenhum sem o outro.
O cão vem sempre à frente, inspeccionando o caminho, se avistar alguém começa a ladrar e o cavalo estaca na posição em que estiver. No passeio, sempre pelo passeio. Depois voltam a carga, o cão sempre à frente, claro, até chegar aos verdes.
Enquanto o cavalo escanzelado se alimenta o cão estaciona na sua posição de segurança e ninguém se pode aproximar sem ouvir uns latidos ameaçadores que afastam os mais curiosos. Isto acontece de manhã, de tarde e infelizmente de noite. De noite. Os cascos do cavalo ecoam pelos paralelos directamente para os ouvidos dos habitantes, e, os latidos do cão ao menor sinal de movimento ou passagem de veículos (já de si menos silenciosos) acabam com o sono descansado de qualquer um.
A revolta contra esta parelha começou a nascer aos pouquinhos entre as comadres. De coisa invulgar e com uma certa piada passou ser olhada com outros olhos e as vozes das comadres chegaram aos compadres. E compadre que se preze não quer cá coisas esquisitas na sua rua! Ainda por cima daquelas que tiram o sono e fazem as comadres ficarem rezingonas!
Foi organizado um grupo de ataque, e, um plano de acção. O Zé da barbearia, o Carlos da Loja, a Benilde das limpezas e João carpinteiro decidiram que o cavalo era muito grande para darem cabo dele sem darem muito nas vistas pelo que se viraram para o comparsa maligno, e, além do mais toda a gente sabia que o cavalo não ia a lado nenhum sem ele. Sem pastor não havia cavalo. Lançaram o isco. Um suculento bife cozinhado em veneno, daquele foleiro mas concentrado. O cão morreu logo ali no passeio. O cavalo ainda o tentou acordar mas no fim de algumas horas resignou-se. O brilho dos olhos negros era um pouco mais brilhante e mais triste. Nunca mais saiu daquele campo.

sexta-feira, 13 de abril de 2007

O vestido

A Dona Rosa lá do bairro sempre fora conhecida por ser a melhor costureira que tinha posto os pés naquela terra mal afamada, e verdade seja dita, fazia coisas que eram um primor. O pormenor dos bordados, as pinças delicadas e discretas, as bainhas invisíveis, os luxuosos vestidos de festa e os vestidos de noiva. Ai, os vestidos de noiva. Verdadeiras obras de arte. Era a costureira mais requisitada e mais dinheiro não fazia porque as mãos eram só duas. Quando a sua única filha Inês foi pedida em casamento Dona Rosa fechou o estabelecimento, entregou as encomendas e disse as pessoas mais próximas que dali em diante e até a cerimónia trabalharia apenas no vestido da filha. Como podem calcular dizer as pessoas mais próximas é o mesmo que dizer a toda a gente, e, passados alguns dias não se falava de outra coisa: o vestido da Inês. Todos comentavam. Bem, sejamos honestos, nem todos. Os homens andavam um pouco fora desta discussão e mais aplicados no campeonato, mas a conversa nas ruas durante uns tempos era dominada por aquele assunto. Discutia-se o estilo, o comprimento da cauda, o véu, quantidade de bordados e o... preço. O preço começou a ganhar destaque e não faltou muito até os homens ganharem interesse neste assunto e começarem a fazer apostas com os palpites das esposas.
Dona Rosa não ligou a nada disto, para dizer a verdade não soube nem a metade pois estava praticamente enclausurada na sua salinha de costura. Ela e a sua “singer”. O tempo foi passando e o dia do casamento chegou.
Os mirones reuniram-se em locais estratégicos para ver a noiva desfilar pela escadaria exterior da casa em direcção ao “Volvo” branco que o pai iria conduzir até a igreja. Mal a porta da casa se abriu ouviu-se um coro de suspiros e depois o silêncio. O vestido era magnífico. A noiva entrou no carro e partiu. A comitiva nupcial também seguiu o mesmo caminho mas voltavam meia hora depois para grande espanto dos populares. O rasca do noivo não apareceu. Fugiu entre a casa dos pais e a igreja. A indignação foi geral e a tristeza abateu-se pelo bairro, não tanto pela vergonha de Inês, que não era muito apreciada por aquelas bandas, mas, pelo vestido. Como podia um vestido tão bonito não ter sido abençoado? Ninguém conseguia perceber. A história foi abafada nos cafés e nas esquinas. Não mais se falou no vestido nem no assunto.
Inês ordenou que o queimassem. Dona Rosa recusou. Escondeu-o da filha na salinha e decidiu que aquele vestido ia ser usado! Pensou que nenhuma das suas clientes o iria querer – um vestido rejeitado, e, também não queria vender a ninguém dali perto pois a história iria chegar aos ouvidos da filha que provavelmente não iria aguentar outra humilhação.
Apanhou a camioneta para a cidade e levou o vestido escondido na cesta das compras. Vendeu-o clandestinamente a uma loja de artigos usados por um quinto do valor, com a condição de que nunca seria exposto na montra. Fez a dona da loja assinar um documento escrito. Não queria correr riscos. A filha não iria aguentar.
O vestido lá ficou esquecido no armazém. Dias. Meses. Anos. A dona da loja já tinha sido atirada para uma cama por uma doença galopante quando chegou para ajudar uma afilhada distante. Lurdinhas era uma moça vistosa da aldeia, ingénua e trabalhadora. Caiu na lábia do filho do alfaiate vizinho e mais tarde na cama dele. Perdeu-se de amores, sonhava acordada e mal abria os olhos para ver que ele não a queria mais e dormia com quantas pudesse apanhar.
Começou a sentir-se evitada e desprezada. Entrou em colapso, lembrou-se das mezinhas de tia Ermelinda e nem sequer pensou duas vezes. Em noite de lua cheia, foi ao armazém, pegou no embrulho, meteu-o no saco, e, caminhou para a praia. Estendeu o vestido, acendeu a vela de igreja, espetou-a na terra e queimou o papel com o nome do filho do alfaiate assim que ouviu as doze badaladas. Murmurou baixinho: ”Vais ser meu, Alberto. Vais ser meu, Alberto. Vais ser meu.”
O vestido foi arrastado pelas ondas, levou-o mar. Assim como levou Alberto, uns meses mais tarde, para a Venezuela em fuga de uma família desonrada e nunca mais ninguém lhe pôs os olhos em cima.
O vestido ainda anda por aí. Flutuando no oceano. Os outros morreram todos. Uma medusa translúcida. Uma caravela portuguesa de tule e folhos. Um fantasma do passado com assuntos por resolver.

sexta-feira, 6 de abril de 2007

Atrasado

Estou atrasado para variar. Ando sempre atrasado. Hoje acordei com uma daquelas sensações estranhas... Sabem quando estamos no banho a lavar o cabelo, a espuma vai descendo, tapa-nos os ouvidos, e, ouvimos tudo assim ao longe? Como se não estivéssemos realmente lá mas do outro lado de uma parede, num outro quarto a escutar as conversas alheias? Acordei assim. A ouvir ao longe aquela voz semi-italiana dos Texas a cantar uma música da qual não me recordo o nome mas que não me sai da cabeça. “you can say what you want but it wont change my mind, I feel the same about you…”.
Já passava da hora no despertador mas não me lembro de o ter ouvido tocar. Nem sei sequer de onde vem a música. Talvez do vizinho do lado? Não interessa. Virei-me para o lado para lhe dar um beijo de bom dia. Ela esta linda. Sempre foi assim. Tem a barriga ligeiramente descoberta e consigo ver a zona do umbigo...não resisti a tocar-lhe. É tão linda. Senti o arrepio a percorrer-lhe o corpo e terminar na cabeça com um ligeiro inclinar para a esquerda. “and you can tell me your reasons but it wont change my feelings…”.
Beijei-lhe o pescoço, e fiquei assim abraçado a ela. Estou atrasado. O despertador finalmente tocou. Agora está na hora de ela acordar. Vai abrindo os olhos com aquela preguiça matinal de gata. Eu vou dando beijos no pescoço que ela agora parece ignorar. O que será que eu fiz? Devo ter feito asneira da grossa ontem... Levanta-se sem me dirigir uma palavra e vai para a casa de banho. Falo para ela. Faço perguntas. Não me responde. Levanto-me para ir ter com ela e pedir desculpa. É sempre melhor pedir desculpa... mesmo sem saber porquê. Ela sai da casa de banho e vem directa a mim. Inclina-se e sinto o braço dela a atravessar-me para abrir a gaveta da mesinha de cabeceira. Sinto uma dor diferente e um leve estremecer da memória que me parte o coração em dois. Ela voltou para a casa de banho e eu segui-a. Atravessei a porta e compreendi. Estou atrasado. A vida passou por mim e eu ando sempre atrás dela.

quinta-feira, 29 de março de 2007

Despedida

Sete menos um quarto. Cheguei antes da hora combinada mas pode ser que tenha sorte...Tentei rodar a chave mas a fechadura não cedeu. Tentei novamente mas não deu sinal de fraqueza.
Trocou a fechadura, tinha de me sujeitar àquela humilhação. As mulheres são mesmo ... são todas assim. Um gajo dava-nos cabo dos cornos mas elas dão-nos cabo da cabeça. E sabem sempre onde atacar, nunca há cá kicks ou upercuts, é sempre em cheio, no centro, onde dói mais.
Ainda demorou mas lá veio abrir a porta. Um só movimento. Abrir a porta, afastar-se e apontar para o sofá. Mal dava para ver na penumbra que ela tinha o vestido verde. Não era uma roupa ao acaso, ficava linda com ele. Já se esta a ver que queria ficar por cima e sair em grande. Não me importei mas olhei demoradamente o contorno do peito, mais do que queria. Ela deu conta e lá no fundo ficou contente. Contente talvez seja uma má palavra! Ficou feliz. Mas fingiu não se importar, com aquele tão conhecido desprezo feminino. Apontou novamente para o sofá e desta vez segui com o olhar o braço até ao indicador. Lá estava em cima do sofá, onde tantas vezes estivemos juntos, a caixa com tudo o que era meu e estava em casa dela, tudo o que lhe dei e até algumas coisas que compramos juntos. A nossa vida de ano e meio. Uma caixa de cartão.
Perguntei se era só aquilo e ela acenou em confirmação.
- Pensavas que eram mais coisas?
- Sim. Pensei.
- Não te preocupes que não fiquei com nenhuma merda tua nem nada que te diga sequer respeito.
- Calma. Não precisamos de acabar assim.
- Não?
- Não. Podemos voltar a tentar...
- Como?
- Podemos voltar a tentar.

Os olhos ficaram maiores e brilhantes, e depois percebi que afinal não ia ter sorte. Não valeu a pena ter vindo mais cedo, não ia ter direito àquela última volta de despedida de que toda a gente fala. Será que alguém teve direito a ela?
- Sai daqui.
- Calma.
- Calma. Só sabes dizer isso? Sai daqui imediatamente! Sai!
Agarrei-lhe um braço e depois o outro. Tentei roubar um beijo mas só consegui uma ferida no lábio. Não foi mau. Há feridas que valem a pena e sempre era uma recordação.
- Larga-me! Besta!
Soltei-a, ela esfregou um pouco os pulsos e dirigiu-se para a porta e apontou novamente mas agora para o corredor do prédio, tentando manter-se inteira. Apanhei a caixa e fui para a porta.
- Queres mesmo acabar?
- Tu deves estar a brincar comigo. Sai da minha casa imediatamente! Nunca mais te quero ver.
- Adeus.
- Adeus, filho da puta.
Sai e ouvi a porta a bater num estrondo. Sete horas. Ainda dá tempo de ir a casa tomar um banho e trocar de roupa para ir para a despedida de solteiro. Pela noiva ainda se espera, mas pelo noivo...

quarta-feira, 21 de março de 2007

A vida fabulosa de Xana Darque

Foi no restaurante do Hotel Dolma que o nosso repórter encontrou a nova estrela em ascensão, para uma conversa informal onde são revelados em exclusivo alguns pormenores da vida desta diva do ambiente social português. Fique para descobrir.

PCN: Quando considera que começou exactamente a sua entrada no ambiente social?
XD: Bem...isso já foi há algum tempo...
PCN: Quando exactamente?
XD: Foi há cerca de dois anos. Nessa altura morava ainda em Viana do Castelo. Uma terra fascinante.
PCN: E o que aconteceu? Pode partilhar isso com os nossos leitores?
XD: Claro. Não é nenhum segredo. Nessa altura eu era um animal de festas, abusava um pouco do álcool e dos comprimidos. Foi uma altura especial para mim e nunca estive tão magra... (risos). Comecei a ter algumas alucinações.
PCN: Alucinações?
XD: Sim. A principio eram coisas poucas. Via objectos e pessoas que desapareciam sem deixar rasto. Coisas leves. Mais tarde comecei a ouvir vozes e as alucinações eram mais persistentes.
PCN: Isso não a incomodava?
XD: A mim? Não. Até fiz algumas amizades imaginárias (risos). Uma dessas foi a grande responsável por um dos meus melhores trabalhos!
PCN: O assassinato da Cabana?
XD: Sim. Foi realmente libertador.
PCN: E a sua família como reagiu a isso?
XD: Reagiu bem. A minha família sempre esteve no negócio da carne. O meu irmão goza até de uma certa fama local.
PCN: Fama local?
XD: Sim. É conhecido como o talhante de Viana.
PCN: Sim. Claro já ouvi falar dele. E os seus pais?
XD: Não conheço a minha mãe. Desapareceu quando eu era miúda. O meu pai actualmente esta reformado e cuida de uma pequena horta biológica junta a estrada. Adora ver passar os carros...
PCN: Ver passar os carros?
XD: Sim... eu também não percebo muito bem...mas acho que ele já tem idade para fazer o que lhe apetecer.
PCN: E os seus amigos como reagiram a este seu novo lado?
XD: os que me conheciam realmente bem não ficaram admirados os outros ficaram um pouco surpresos. No final de contas perdi alguns amigos que não conseguiram lidar bem com este meu novo estatuto social. Mas ganhei outros. Pessoas muito divertidas e influentes.
PCN: Influentes?
XD: Sim. Algumas pessoas com poder mas como é óbvio não vou citar nomes. Acho que seria indelicado.
PCN: E o que tem feito ultimamente?
XD: A minha última performance foi na Serra da Estrela. Atenção que estou a revelar isto em primeira mão. Ainda não foi lançado para os media. Foi um trabalho de grupo com alguns conhecidos e envolveu a famílias inteiras, neblina intensa e muito, muito gelo. Foi absolutamente fantástico. Acredito mesmo que atingi um outro nível.
PCN: E para o futuro?
XD: Sinceramente não sei. Tenho alguns planos. Talvez escrever um livro sobre as minhas experiências mas não sei. Isso já me parece muito batido. Vamos ver para onde a vida me leva.

segunda-feira, 12 de março de 2007

Às quintas

Correr de um lado para o outro, números, previsões, sempre com um sorriso nos lábios e um tique de aceno afirmativo na direcção de um chefe acéfalo ... uma merda! E no final do dia chegar a casa e não ter nada que me estimulasse. Até o sexo já estava na fase rotineira e não havia volta a dar-lhe. Podia tê-la mandado dar uma volta mas só o transtorno de procurar outra, para passadas umas semanas andar no mesmo... e como dizia o outro: “sexo é bom mesmo quando é mau”... Andava nisto há já algum tempo e não via maneira de sair, de escapar desta vida deplorável.
Há cerca de seis meses chegou lá ao escritório mais um funcionário lambe-botas, e, eu de início não vi a coisa com bons olhos – mais um paspalho para eu aturar, como se já não me chegassem estes – mas as coisas mudaram lentamente. Foi-se instalando uma cumplicidade baseada num ódio aquela existência miserável das nove às cinco. Um mês depois ele convidou-me para ir com ele, e, ver como conseguia aguentar os dias... Uma espécie de passatempo que praticava todas as quintas depois de jantar e tomar uns copos. Eu aceitei. Se funcionava para ele também devia funcionar para min.
Nesse dia quando abri a porta de casa era já uma pessoa diferente. Tudo mudou. Comecei a fazê-lo regularmente e a minha vida passou para um outro nível. A primeira a notar foi a minha namorada, que comentava entre suspiros suados que “o sexo nunca tinha sido tão bom”. No trabalho já nada me afectava e eu andava de um lado para o outro contando mentalmente o tempo que faltava para quinta feira. Fomos ficando mais cúmplices, o Alberto e eu, e, por vezes passavam dias sem trocarmos uma palavra. Não valia a pena. Se falássemos era só para falarmos daquilo, e, aquilo era nosso, só nosso. Fui promovido pouco tempo depois, tendo até o chefe elogiado a minha nova personalidade mais forte, mais segura de si. Fingi humildade e continuamos. A vida estava cada vez melhor. Decidi despachar a namorada. Já não tinha nada de novo para oferecer. Arranjei outras. A minha vida mudou. Foi pena aquela última ter conseguido escapar e nos ter denunciado... Foi pena...

terça-feira, 6 de março de 2007

Sete

...dias da semana,
...graus da perfeição,
...esferas,
...pétalas de rosa,
...vezes me tocou,
...ramos da árvore,
...portas de Tebas,
...cordas da lira,
...cores do arco-íris,
...céus,
...lágrimas derramadas,
...estrelas da Ursa Maior,
...mares,
...anões,
...vezes me agarrou,
...pecados mortais,
...facadas,
...não me toca mais.

sábado, 3 de março de 2007

00.04.23

00.00.00 – Avançar calmamente e resignadamente até meio da ponte, olhando, pelo canto do olho, o rio e os seus inúmeros pequenos pontos de luz reflectidos metros abaixo. 00.01.47 – Agarrar com força o metal frio e áspero do corrimão. Sentir a ferrugem em contacto com a pele. Fechar os olhos. Abrir os olhos. 00.02.25 – Fechar os olhos. Respirar fundo. Abrir os olhos. 00.02.29 – Sentir a brisa húmida no rosto. Olhar o rio. Fechar os olhos. Respirar fundo. Agarrar com mais força o corrimão. Sentir a ferrugem a desprender do metal velho e corroído. 00.02.54 – Tirar o sapato direito com o pé esquerdo. Tirar o sapato esquerdo com o pé direito. 00.03.10 – Colocar os sapatos num sítio visível. Endireitar o sapato esquerdo dois centímetros para o lado direito. 00.03.28 – Sentir o frio passar pelas meias. Encolher os dedos dos pés. Agarrar o corrimão. 00.03.35 Subir para o corrimão. 00.03.43 – Agarrar o cabo. 00.03.45 – Olhar o rio negro no horizonte. Fixar um ponto de luz. Respirar fundo. Seguir com o olhar um saco arrastado pela corrente. 00.04.06 – Hesitar. Recordar. 00.04.08 – Olhar para baixo. Olhar para o rio negro. Sentir o coração bater mais forte. 00.04.11 – Respirar fundo. Respirar. Inspirar. Expirar. 00.04.17 – Inclinar a cabeça para a frente. 00.04.18 – Recordar. 00.04.19 – Deixar-se ir. 00.04.20 – Recordar. O sorriso. O Sorriso. A chuva. As luzes. Guinar para a esquerda. O motion blur. Os vidros partidos. O sangue. A mão por cima da dele. O sangue. Os vidros. As sirenes. As luzes. O sorriso. A mão por cima da dele. 00.04.21 – O sorriso. Aquele sorriso. A mão. Aquela mão. A primeira palavra. O primeiro sorriso. O primeiro beijo. As luzes. O grito lancinante: “Cuidado!”. 00.04.22 – Branco. Negro. 00.04.23 – Tarde de mais...