terça-feira, 24 de abril de 2007

O cavalo e o cão

Na minha rua, eu e os meus vizinhos, temos assistido a uma amizade, no mínimo estranha. Um cão e um cavalo. Surgem do nada, descem a rua e dirigem-se aos terrenos vazios. O cavalo pasta sob a vigilância atenta de um velho pastor alemã e ambos apresentam aquelas peladas de abandono. Um não vai para lado nenhum sem o outro.
O cão vem sempre à frente, inspeccionando o caminho, se avistar alguém começa a ladrar e o cavalo estaca na posição em que estiver. No passeio, sempre pelo passeio. Depois voltam a carga, o cão sempre à frente, claro, até chegar aos verdes.
Enquanto o cavalo escanzelado se alimenta o cão estaciona na sua posição de segurança e ninguém se pode aproximar sem ouvir uns latidos ameaçadores que afastam os mais curiosos. Isto acontece de manhã, de tarde e infelizmente de noite. De noite. Os cascos do cavalo ecoam pelos paralelos directamente para os ouvidos dos habitantes, e, os latidos do cão ao menor sinal de movimento ou passagem de veículos (já de si menos silenciosos) acabam com o sono descansado de qualquer um.
A revolta contra esta parelha começou a nascer aos pouquinhos entre as comadres. De coisa invulgar e com uma certa piada passou ser olhada com outros olhos e as vozes das comadres chegaram aos compadres. E compadre que se preze não quer cá coisas esquisitas na sua rua! Ainda por cima daquelas que tiram o sono e fazem as comadres ficarem rezingonas!
Foi organizado um grupo de ataque, e, um plano de acção. O Zé da barbearia, o Carlos da Loja, a Benilde das limpezas e João carpinteiro decidiram que o cavalo era muito grande para darem cabo dele sem darem muito nas vistas pelo que se viraram para o comparsa maligno, e, além do mais toda a gente sabia que o cavalo não ia a lado nenhum sem ele. Sem pastor não havia cavalo. Lançaram o isco. Um suculento bife cozinhado em veneno, daquele foleiro mas concentrado. O cão morreu logo ali no passeio. O cavalo ainda o tentou acordar mas no fim de algumas horas resignou-se. O brilho dos olhos negros era um pouco mais brilhante e mais triste. Nunca mais saiu daquele campo.

sexta-feira, 13 de abril de 2007

O vestido

A Dona Rosa lá do bairro sempre fora conhecida por ser a melhor costureira que tinha posto os pés naquela terra mal afamada, e verdade seja dita, fazia coisas que eram um primor. O pormenor dos bordados, as pinças delicadas e discretas, as bainhas invisíveis, os luxuosos vestidos de festa e os vestidos de noiva. Ai, os vestidos de noiva. Verdadeiras obras de arte. Era a costureira mais requisitada e mais dinheiro não fazia porque as mãos eram só duas. Quando a sua única filha Inês foi pedida em casamento Dona Rosa fechou o estabelecimento, entregou as encomendas e disse as pessoas mais próximas que dali em diante e até a cerimónia trabalharia apenas no vestido da filha. Como podem calcular dizer as pessoas mais próximas é o mesmo que dizer a toda a gente, e, passados alguns dias não se falava de outra coisa: o vestido da Inês. Todos comentavam. Bem, sejamos honestos, nem todos. Os homens andavam um pouco fora desta discussão e mais aplicados no campeonato, mas a conversa nas ruas durante uns tempos era dominada por aquele assunto. Discutia-se o estilo, o comprimento da cauda, o véu, quantidade de bordados e o... preço. O preço começou a ganhar destaque e não faltou muito até os homens ganharem interesse neste assunto e começarem a fazer apostas com os palpites das esposas.
Dona Rosa não ligou a nada disto, para dizer a verdade não soube nem a metade pois estava praticamente enclausurada na sua salinha de costura. Ela e a sua “singer”. O tempo foi passando e o dia do casamento chegou.
Os mirones reuniram-se em locais estratégicos para ver a noiva desfilar pela escadaria exterior da casa em direcção ao “Volvo” branco que o pai iria conduzir até a igreja. Mal a porta da casa se abriu ouviu-se um coro de suspiros e depois o silêncio. O vestido era magnífico. A noiva entrou no carro e partiu. A comitiva nupcial também seguiu o mesmo caminho mas voltavam meia hora depois para grande espanto dos populares. O rasca do noivo não apareceu. Fugiu entre a casa dos pais e a igreja. A indignação foi geral e a tristeza abateu-se pelo bairro, não tanto pela vergonha de Inês, que não era muito apreciada por aquelas bandas, mas, pelo vestido. Como podia um vestido tão bonito não ter sido abençoado? Ninguém conseguia perceber. A história foi abafada nos cafés e nas esquinas. Não mais se falou no vestido nem no assunto.
Inês ordenou que o queimassem. Dona Rosa recusou. Escondeu-o da filha na salinha e decidiu que aquele vestido ia ser usado! Pensou que nenhuma das suas clientes o iria querer – um vestido rejeitado, e, também não queria vender a ninguém dali perto pois a história iria chegar aos ouvidos da filha que provavelmente não iria aguentar outra humilhação.
Apanhou a camioneta para a cidade e levou o vestido escondido na cesta das compras. Vendeu-o clandestinamente a uma loja de artigos usados por um quinto do valor, com a condição de que nunca seria exposto na montra. Fez a dona da loja assinar um documento escrito. Não queria correr riscos. A filha não iria aguentar.
O vestido lá ficou esquecido no armazém. Dias. Meses. Anos. A dona da loja já tinha sido atirada para uma cama por uma doença galopante quando chegou para ajudar uma afilhada distante. Lurdinhas era uma moça vistosa da aldeia, ingénua e trabalhadora. Caiu na lábia do filho do alfaiate vizinho e mais tarde na cama dele. Perdeu-se de amores, sonhava acordada e mal abria os olhos para ver que ele não a queria mais e dormia com quantas pudesse apanhar.
Começou a sentir-se evitada e desprezada. Entrou em colapso, lembrou-se das mezinhas de tia Ermelinda e nem sequer pensou duas vezes. Em noite de lua cheia, foi ao armazém, pegou no embrulho, meteu-o no saco, e, caminhou para a praia. Estendeu o vestido, acendeu a vela de igreja, espetou-a na terra e queimou o papel com o nome do filho do alfaiate assim que ouviu as doze badaladas. Murmurou baixinho: ”Vais ser meu, Alberto. Vais ser meu, Alberto. Vais ser meu.”
O vestido foi arrastado pelas ondas, levou-o mar. Assim como levou Alberto, uns meses mais tarde, para a Venezuela em fuga de uma família desonrada e nunca mais ninguém lhe pôs os olhos em cima.
O vestido ainda anda por aí. Flutuando no oceano. Os outros morreram todos. Uma medusa translúcida. Uma caravela portuguesa de tule e folhos. Um fantasma do passado com assuntos por resolver.

sexta-feira, 6 de abril de 2007

Atrasado

Estou atrasado para variar. Ando sempre atrasado. Hoje acordei com uma daquelas sensações estranhas... Sabem quando estamos no banho a lavar o cabelo, a espuma vai descendo, tapa-nos os ouvidos, e, ouvimos tudo assim ao longe? Como se não estivéssemos realmente lá mas do outro lado de uma parede, num outro quarto a escutar as conversas alheias? Acordei assim. A ouvir ao longe aquela voz semi-italiana dos Texas a cantar uma música da qual não me recordo o nome mas que não me sai da cabeça. “you can say what you want but it wont change my mind, I feel the same about you…”.
Já passava da hora no despertador mas não me lembro de o ter ouvido tocar. Nem sei sequer de onde vem a música. Talvez do vizinho do lado? Não interessa. Virei-me para o lado para lhe dar um beijo de bom dia. Ela esta linda. Sempre foi assim. Tem a barriga ligeiramente descoberta e consigo ver a zona do umbigo...não resisti a tocar-lhe. É tão linda. Senti o arrepio a percorrer-lhe o corpo e terminar na cabeça com um ligeiro inclinar para a esquerda. “and you can tell me your reasons but it wont change my feelings…”.
Beijei-lhe o pescoço, e fiquei assim abraçado a ela. Estou atrasado. O despertador finalmente tocou. Agora está na hora de ela acordar. Vai abrindo os olhos com aquela preguiça matinal de gata. Eu vou dando beijos no pescoço que ela agora parece ignorar. O que será que eu fiz? Devo ter feito asneira da grossa ontem... Levanta-se sem me dirigir uma palavra e vai para a casa de banho. Falo para ela. Faço perguntas. Não me responde. Levanto-me para ir ter com ela e pedir desculpa. É sempre melhor pedir desculpa... mesmo sem saber porquê. Ela sai da casa de banho e vem directa a mim. Inclina-se e sinto o braço dela a atravessar-me para abrir a gaveta da mesinha de cabeceira. Sinto uma dor diferente e um leve estremecer da memória que me parte o coração em dois. Ela voltou para a casa de banho e eu segui-a. Atravessei a porta e compreendi. Estou atrasado. A vida passou por mim e eu ando sempre atrás dela.

quinta-feira, 29 de março de 2007

Despedida

Sete menos um quarto. Cheguei antes da hora combinada mas pode ser que tenha sorte...Tentei rodar a chave mas a fechadura não cedeu. Tentei novamente mas não deu sinal de fraqueza.
Trocou a fechadura, tinha de me sujeitar àquela humilhação. As mulheres são mesmo ... são todas assim. Um gajo dava-nos cabo dos cornos mas elas dão-nos cabo da cabeça. E sabem sempre onde atacar, nunca há cá kicks ou upercuts, é sempre em cheio, no centro, onde dói mais.
Ainda demorou mas lá veio abrir a porta. Um só movimento. Abrir a porta, afastar-se e apontar para o sofá. Mal dava para ver na penumbra que ela tinha o vestido verde. Não era uma roupa ao acaso, ficava linda com ele. Já se esta a ver que queria ficar por cima e sair em grande. Não me importei mas olhei demoradamente o contorno do peito, mais do que queria. Ela deu conta e lá no fundo ficou contente. Contente talvez seja uma má palavra! Ficou feliz. Mas fingiu não se importar, com aquele tão conhecido desprezo feminino. Apontou novamente para o sofá e desta vez segui com o olhar o braço até ao indicador. Lá estava em cima do sofá, onde tantas vezes estivemos juntos, a caixa com tudo o que era meu e estava em casa dela, tudo o que lhe dei e até algumas coisas que compramos juntos. A nossa vida de ano e meio. Uma caixa de cartão.
Perguntei se era só aquilo e ela acenou em confirmação.
- Pensavas que eram mais coisas?
- Sim. Pensei.
- Não te preocupes que não fiquei com nenhuma merda tua nem nada que te diga sequer respeito.
- Calma. Não precisamos de acabar assim.
- Não?
- Não. Podemos voltar a tentar...
- Como?
- Podemos voltar a tentar.

Os olhos ficaram maiores e brilhantes, e depois percebi que afinal não ia ter sorte. Não valeu a pena ter vindo mais cedo, não ia ter direito àquela última volta de despedida de que toda a gente fala. Será que alguém teve direito a ela?
- Sai daqui.
- Calma.
- Calma. Só sabes dizer isso? Sai daqui imediatamente! Sai!
Agarrei-lhe um braço e depois o outro. Tentei roubar um beijo mas só consegui uma ferida no lábio. Não foi mau. Há feridas que valem a pena e sempre era uma recordação.
- Larga-me! Besta!
Soltei-a, ela esfregou um pouco os pulsos e dirigiu-se para a porta e apontou novamente mas agora para o corredor do prédio, tentando manter-se inteira. Apanhei a caixa e fui para a porta.
- Queres mesmo acabar?
- Tu deves estar a brincar comigo. Sai da minha casa imediatamente! Nunca mais te quero ver.
- Adeus.
- Adeus, filho da puta.
Sai e ouvi a porta a bater num estrondo. Sete horas. Ainda dá tempo de ir a casa tomar um banho e trocar de roupa para ir para a despedida de solteiro. Pela noiva ainda se espera, mas pelo noivo...

quarta-feira, 21 de março de 2007

A vida fabulosa de Xana Darque

Foi no restaurante do Hotel Dolma que o nosso repórter encontrou a nova estrela em ascensão, para uma conversa informal onde são revelados em exclusivo alguns pormenores da vida desta diva do ambiente social português. Fique para descobrir.

PCN: Quando considera que começou exactamente a sua entrada no ambiente social?
XD: Bem...isso já foi há algum tempo...
PCN: Quando exactamente?
XD: Foi há cerca de dois anos. Nessa altura morava ainda em Viana do Castelo. Uma terra fascinante.
PCN: E o que aconteceu? Pode partilhar isso com os nossos leitores?
XD: Claro. Não é nenhum segredo. Nessa altura eu era um animal de festas, abusava um pouco do álcool e dos comprimidos. Foi uma altura especial para mim e nunca estive tão magra... (risos). Comecei a ter algumas alucinações.
PCN: Alucinações?
XD: Sim. A principio eram coisas poucas. Via objectos e pessoas que desapareciam sem deixar rasto. Coisas leves. Mais tarde comecei a ouvir vozes e as alucinações eram mais persistentes.
PCN: Isso não a incomodava?
XD: A mim? Não. Até fiz algumas amizades imaginárias (risos). Uma dessas foi a grande responsável por um dos meus melhores trabalhos!
PCN: O assassinato da Cabana?
XD: Sim. Foi realmente libertador.
PCN: E a sua família como reagiu a isso?
XD: Reagiu bem. A minha família sempre esteve no negócio da carne. O meu irmão goza até de uma certa fama local.
PCN: Fama local?
XD: Sim. É conhecido como o talhante de Viana.
PCN: Sim. Claro já ouvi falar dele. E os seus pais?
XD: Não conheço a minha mãe. Desapareceu quando eu era miúda. O meu pai actualmente esta reformado e cuida de uma pequena horta biológica junta a estrada. Adora ver passar os carros...
PCN: Ver passar os carros?
XD: Sim... eu também não percebo muito bem...mas acho que ele já tem idade para fazer o que lhe apetecer.
PCN: E os seus amigos como reagiram a este seu novo lado?
XD: os que me conheciam realmente bem não ficaram admirados os outros ficaram um pouco surpresos. No final de contas perdi alguns amigos que não conseguiram lidar bem com este meu novo estatuto social. Mas ganhei outros. Pessoas muito divertidas e influentes.
PCN: Influentes?
XD: Sim. Algumas pessoas com poder mas como é óbvio não vou citar nomes. Acho que seria indelicado.
PCN: E o que tem feito ultimamente?
XD: A minha última performance foi na Serra da Estrela. Atenção que estou a revelar isto em primeira mão. Ainda não foi lançado para os media. Foi um trabalho de grupo com alguns conhecidos e envolveu a famílias inteiras, neblina intensa e muito, muito gelo. Foi absolutamente fantástico. Acredito mesmo que atingi um outro nível.
PCN: E para o futuro?
XD: Sinceramente não sei. Tenho alguns planos. Talvez escrever um livro sobre as minhas experiências mas não sei. Isso já me parece muito batido. Vamos ver para onde a vida me leva.

segunda-feira, 12 de março de 2007

Às quintas

Correr de um lado para o outro, números, previsões, sempre com um sorriso nos lábios e um tique de aceno afirmativo na direcção de um chefe acéfalo ... uma merda! E no final do dia chegar a casa e não ter nada que me estimulasse. Até o sexo já estava na fase rotineira e não havia volta a dar-lhe. Podia tê-la mandado dar uma volta mas só o transtorno de procurar outra, para passadas umas semanas andar no mesmo... e como dizia o outro: “sexo é bom mesmo quando é mau”... Andava nisto há já algum tempo e não via maneira de sair, de escapar desta vida deplorável.
Há cerca de seis meses chegou lá ao escritório mais um funcionário lambe-botas, e, eu de início não vi a coisa com bons olhos – mais um paspalho para eu aturar, como se já não me chegassem estes – mas as coisas mudaram lentamente. Foi-se instalando uma cumplicidade baseada num ódio aquela existência miserável das nove às cinco. Um mês depois ele convidou-me para ir com ele, e, ver como conseguia aguentar os dias... Uma espécie de passatempo que praticava todas as quintas depois de jantar e tomar uns copos. Eu aceitei. Se funcionava para ele também devia funcionar para min.
Nesse dia quando abri a porta de casa era já uma pessoa diferente. Tudo mudou. Comecei a fazê-lo regularmente e a minha vida passou para um outro nível. A primeira a notar foi a minha namorada, que comentava entre suspiros suados que “o sexo nunca tinha sido tão bom”. No trabalho já nada me afectava e eu andava de um lado para o outro contando mentalmente o tempo que faltava para quinta feira. Fomos ficando mais cúmplices, o Alberto e eu, e, por vezes passavam dias sem trocarmos uma palavra. Não valia a pena. Se falássemos era só para falarmos daquilo, e, aquilo era nosso, só nosso. Fui promovido pouco tempo depois, tendo até o chefe elogiado a minha nova personalidade mais forte, mais segura de si. Fingi humildade e continuamos. A vida estava cada vez melhor. Decidi despachar a namorada. Já não tinha nada de novo para oferecer. Arranjei outras. A minha vida mudou. Foi pena aquela última ter conseguido escapar e nos ter denunciado... Foi pena...

terça-feira, 6 de março de 2007

Sete

...dias da semana,
...graus da perfeição,
...esferas,
...pétalas de rosa,
...vezes me tocou,
...ramos da árvore,
...portas de Tebas,
...cordas da lira,
...cores do arco-íris,
...céus,
...lágrimas derramadas,
...estrelas da Ursa Maior,
...mares,
...anões,
...vezes me agarrou,
...pecados mortais,
...facadas,
...não me toca mais.

sábado, 3 de março de 2007

00.04.23

00.00.00 – Avançar calmamente e resignadamente até meio da ponte, olhando, pelo canto do olho, o rio e os seus inúmeros pequenos pontos de luz reflectidos metros abaixo. 00.01.47 – Agarrar com força o metal frio e áspero do corrimão. Sentir a ferrugem em contacto com a pele. Fechar os olhos. Abrir os olhos. 00.02.25 – Fechar os olhos. Respirar fundo. Abrir os olhos. 00.02.29 – Sentir a brisa húmida no rosto. Olhar o rio. Fechar os olhos. Respirar fundo. Agarrar com mais força o corrimão. Sentir a ferrugem a desprender do metal velho e corroído. 00.02.54 – Tirar o sapato direito com o pé esquerdo. Tirar o sapato esquerdo com o pé direito. 00.03.10 – Colocar os sapatos num sítio visível. Endireitar o sapato esquerdo dois centímetros para o lado direito. 00.03.28 – Sentir o frio passar pelas meias. Encolher os dedos dos pés. Agarrar o corrimão. 00.03.35 Subir para o corrimão. 00.03.43 – Agarrar o cabo. 00.03.45 – Olhar o rio negro no horizonte. Fixar um ponto de luz. Respirar fundo. Seguir com o olhar um saco arrastado pela corrente. 00.04.06 – Hesitar. Recordar. 00.04.08 – Olhar para baixo. Olhar para o rio negro. Sentir o coração bater mais forte. 00.04.11 – Respirar fundo. Respirar. Inspirar. Expirar. 00.04.17 – Inclinar a cabeça para a frente. 00.04.18 – Recordar. 00.04.19 – Deixar-se ir. 00.04.20 – Recordar. O sorriso. O Sorriso. A chuva. As luzes. Guinar para a esquerda. O motion blur. Os vidros partidos. O sangue. A mão por cima da dele. O sangue. Os vidros. As sirenes. As luzes. O sorriso. A mão por cima da dele. 00.04.21 – O sorriso. Aquele sorriso. A mão. Aquela mão. A primeira palavra. O primeiro sorriso. O primeiro beijo. As luzes. O grito lancinante: “Cuidado!”. 00.04.22 – Branco. Negro. 00.04.23 – Tarde de mais...

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Reunião de família

Bem, lá vamos nós outra vez. Não sei porque razão continuo a ir a estas reuniões de família. Ou melhor, sei... A curiosidade é uma coisa terrível!
Da última vez que nos vimos ele estava fantástico, como sempre. Ela estava um pouco mais...mais... Como posso dizer isto? Nada me parece muito adequado, estou a falar da realeza no final de contas... Digamos que estava mais próxima da Vênus de Willendorf do que da Vénus de Milo... Acho que percebem aonde quero chegar e são dois tipos de beleza feminina perfeitamente legítimos...
Bem, é o que acontece a uma pessoa quando se habitua demasiado à boa vida. Boa comida, criados para isto, criados para aquilo...
Sim, tenho inveja! E depois? Eu sempre fui nobre, nunca me habituei a este estilo de vida que levo agora. Ela adora esfregar-me isso na cara! Adora, pois! Ela, uma rapariga do campo, habituada aos trabalhos domésticos é agora rainha do mais rico reino... e eu reduzida a uma parente pobre! A prima que eles convidam para os jantares de família por pena, ou ainda pior, por gozo.
Que culpa tenho eu de ele me ter deixado por uma morenaça de olhos verdes? Eu por acaso lá tenho culpa de ser assim tão pálida? Parece que não conhecem a história? A culpa não é minha!
Ela teve foi sorte! Teve uma fada sempre do lado dela e toda a gente sabe que com magia as coisas são sempre mais fáceis! Eu tive de lutar contra uma bruxa! Eu escapei à morte! Ela o que fez? Vestiu uma roupinha mágica, calçou aqueles sapatos horríveis e apareceu num baile! Só isso. E felicidade para sempre! Caramba! Há pessoas com sorte!
Eu lá tenho culpa que ele tenha roubado tudo para levar para os trópicos e se instalar confortavelmente com aquela rameira exótica? Ainda tentei manter a situação mas não consegui. Até a estúpida mina de ouro acabou. Nem mais uma pepita de ouro os anões conseguiram retirar de lá...
Fui obrigada a declarar falência, mudei-me para uma zona mais modesta e o palácio foi vendido em hasta pública. Advinhem quem o comprou? ELA! Claro! Só para mo atirar a cara! Onde acham que vou jantar hoje? Claro que é lá! Acreditam mesmo que é coincidência? Pois...
Tive de voltar para a floresta onde é tudo muito bonito e pacífico mas tentem tomar uma banho gelado as sete da manhã que a beleza e a paz desaparecem imediatamente. Gelado, sim... Estranhamente o gás canalizado ainda não chegou a minha área de residência. Só a minha área de residência!
Bom, estou a chegar. Já os vejo a porta, o “casal maravilha”. Vá lá, porta-te bem agora ou ainda és decapitada... não era a primeira e afinal sou só prima por casamento...
Porque é que eu ainda venho a estas coisas?Para ver que ela está cada vez mais GORDA!

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Gémeos

No dia 10 de Setembro Carlos foi atirado para a cama de um hospital com uma “doença do sangue”. Os pais entraram em choque, o seu único filho tinha leucemia. Laurinda e Afonso já tinham ouvido falar disso, já tinham visto até pedidos de pais desesperados na televisão – naqueles telejornais que duram uma eternidade e esmiuçam ao máximo a desgraça humana. Já todos vimos um desses, mas sofrer um caso assim era demais para aquele casal feliz. Sim, porque os há, os casais felizes, digo.
A vida é claro mudou: idas ao hospital, cuidados com tudo, assistência diária ao filho. Laurinda deixou o emprego e tinha os nervos em papa, parecia andar continuamente sobre o efeito de um ou dois “Valium”. Afonso continuou a sua vida de contabilista tentando manter a família, embora, no fundo já estivesse corroído pelo medo. O medo. Oh, sim, aquele medo que lhes infestava o quarto à noite, aquele cheiro a medicamentos e hospital que circulava pelo quarto como um presságio de morte, uma corrente de ar nefasto e estagnado. De manhã voltava-se a rotina diária e o sorriso de Carlos sempre ajudava a esquecer que em tempos as coisas foram melhores. Não demorou muito até Laurinda e Afonso, aparecerem eles próprios num desses noticiários com um pedido de ajuda. Gerou-se uma onda de solidariedade mas nenhum dador compatível surgia da faina e a situação complicou-se, pois Carlos enfraquecia de dia para dia. Os médicos não pareciam poder ajudar e saltavam de especialista para especialista até encontrarem o Dr. Freitas Mendonça, senhor de alta reputação académica. Ao que Laurinda e Afonso conseguiram perceber, em vez de perder um filho iriam ganhar outro.
“Uma vez que não conseguimos encontrar um dador compatível com o vosso filho podemos criar um, uma espécie de clone. Retiramos uma amostra do DNA do vosso filho, retiramos algumas imperfeições, e daqui a nove meses podem usar o cordão umbilical para salvar o Carlos” - explicou o senhor doutor.
Laurinda e Afonso nem podiam conter o entusiasmo, além de se salvar o Carlos, um filho perfeito, iriam ter um outro filho igualzinho a ele. Nem todos os casais eram assim abençoados, mas vendo bem as coisas, eles tinham sido até ao dia 10 de Setembro um casal feliz. Aceitaram de imediato, assinaram os documentos necessários e fotocopiaram os papeis importantes.
Carlos lá foi resistindo, e nove meses depois, mais coisa menos coisa nasceu Bernardo. Três quilos e seiscentas e cinquenta e três gramas de pura saúde. Os procedimentos para salvar a vida de Carlos seguiram o planeado e Carlos recuperou. Laurinda procurou novo emprego e as coisas foram voltando ao equilíbrio e até felicidade.
Os efeitos do tempo não tardaram a fazer-se sentir. Uma mancha de húmidade no canto da sala, uma foto de Bernardo aqui, um desenho no frigorífico, uma medalha de atletismo no móvel da sala, um equipamento de futebol, um diploma e mais outro, e as coisas foram mudando.
Com o passar do tempo Carlos foi sentindo que Bernardo estava a roubar parte do seu lugar naquela família mas associou tudo a ciúmes de irmão mais velho, e, Bernardo salvou-lhe a vida. Sem ele não teria sequer lugar naquela família!
Infelizmente, o carrossel não pára e as coisas foram mudando novamente... Mais fotos, diplomas, medalhas, taças foram surgindo naquela casa e foi necessário arranjar espaço, que Alfredo e Laurinda arranjaram retirando algumas coisas de Carlos. Coisas insignificantes. Mas Carlos reparou e no fundo do seu coração foi crescendo uma sensação de roubo. A vida dele estava a ser roubada! Ele podia ter sido tudo aquilo, ele podia ter tudo aquilo! Ele podia ser o Bernardo. Melhor, o Bernardo era ele. Porque é que ele tinha de ficar com os seus genes e não as suas imperfeições? Não era justo! Ele é que era o verdadeiro. O original. Porque é que ele não podia ser um atleta? Porque é que ele se constipava frequentemente? E a raiva foi crescendo, crescendo. Ficando aprisionada naquele coração e foi ganhando forças, minando todo o seu espírito e raciocínio. Tecia conspirações que invariavelmente terminavam com a morte do irmão, chegando algumas vezes a tentar por os seus planos em prática, sendo apenas impedido pelos seus pais. “Aqueles traidores egoístas!”, pelo menos foi isso que ele lhes chamou quando os enfermeiros o enfiavam na ambulância para o levarem para a “casa de repouso”.Laurinda e Afonso durante uns tempos tiveram alguma dificuldade com a sua decisão mas depois foram atingidos por uma conclusão apaziguadora: ”Tinham pelo menos um filho perfeito”.