quinta-feira, 29 de março de 2007

Despedida

Sete menos um quarto. Cheguei antes da hora combinada mas pode ser que tenha sorte...Tentei rodar a chave mas a fechadura não cedeu. Tentei novamente mas não deu sinal de fraqueza.
Trocou a fechadura, tinha de me sujeitar àquela humilhação. As mulheres são mesmo ... são todas assim. Um gajo dava-nos cabo dos cornos mas elas dão-nos cabo da cabeça. E sabem sempre onde atacar, nunca há cá kicks ou upercuts, é sempre em cheio, no centro, onde dói mais.
Ainda demorou mas lá veio abrir a porta. Um só movimento. Abrir a porta, afastar-se e apontar para o sofá. Mal dava para ver na penumbra que ela tinha o vestido verde. Não era uma roupa ao acaso, ficava linda com ele. Já se esta a ver que queria ficar por cima e sair em grande. Não me importei mas olhei demoradamente o contorno do peito, mais do que queria. Ela deu conta e lá no fundo ficou contente. Contente talvez seja uma má palavra! Ficou feliz. Mas fingiu não se importar, com aquele tão conhecido desprezo feminino. Apontou novamente para o sofá e desta vez segui com o olhar o braço até ao indicador. Lá estava em cima do sofá, onde tantas vezes estivemos juntos, a caixa com tudo o que era meu e estava em casa dela, tudo o que lhe dei e até algumas coisas que compramos juntos. A nossa vida de ano e meio. Uma caixa de cartão.
Perguntei se era só aquilo e ela acenou em confirmação.
- Pensavas que eram mais coisas?
- Sim. Pensei.
- Não te preocupes que não fiquei com nenhuma merda tua nem nada que te diga sequer respeito.
- Calma. Não precisamos de acabar assim.
- Não?
- Não. Podemos voltar a tentar...
- Como?
- Podemos voltar a tentar.

Os olhos ficaram maiores e brilhantes, e depois percebi que afinal não ia ter sorte. Não valeu a pena ter vindo mais cedo, não ia ter direito àquela última volta de despedida de que toda a gente fala. Será que alguém teve direito a ela?
- Sai daqui.
- Calma.
- Calma. Só sabes dizer isso? Sai daqui imediatamente! Sai!
Agarrei-lhe um braço e depois o outro. Tentei roubar um beijo mas só consegui uma ferida no lábio. Não foi mau. Há feridas que valem a pena e sempre era uma recordação.
- Larga-me! Besta!
Soltei-a, ela esfregou um pouco os pulsos e dirigiu-se para a porta e apontou novamente mas agora para o corredor do prédio, tentando manter-se inteira. Apanhei a caixa e fui para a porta.
- Queres mesmo acabar?
- Tu deves estar a brincar comigo. Sai da minha casa imediatamente! Nunca mais te quero ver.
- Adeus.
- Adeus, filho da puta.
Sai e ouvi a porta a bater num estrondo. Sete horas. Ainda dá tempo de ir a casa tomar um banho e trocar de roupa para ir para a despedida de solteiro. Pela noiva ainda se espera, mas pelo noivo...

quarta-feira, 21 de março de 2007

A vida fabulosa de Xana Darque

Foi no restaurante do Hotel Dolma que o nosso repórter encontrou a nova estrela em ascensão, para uma conversa informal onde são revelados em exclusivo alguns pormenores da vida desta diva do ambiente social português. Fique para descobrir.

PCN: Quando considera que começou exactamente a sua entrada no ambiente social?
XD: Bem...isso já foi há algum tempo...
PCN: Quando exactamente?
XD: Foi há cerca de dois anos. Nessa altura morava ainda em Viana do Castelo. Uma terra fascinante.
PCN: E o que aconteceu? Pode partilhar isso com os nossos leitores?
XD: Claro. Não é nenhum segredo. Nessa altura eu era um animal de festas, abusava um pouco do álcool e dos comprimidos. Foi uma altura especial para mim e nunca estive tão magra... (risos). Comecei a ter algumas alucinações.
PCN: Alucinações?
XD: Sim. A principio eram coisas poucas. Via objectos e pessoas que desapareciam sem deixar rasto. Coisas leves. Mais tarde comecei a ouvir vozes e as alucinações eram mais persistentes.
PCN: Isso não a incomodava?
XD: A mim? Não. Até fiz algumas amizades imaginárias (risos). Uma dessas foi a grande responsável por um dos meus melhores trabalhos!
PCN: O assassinato da Cabana?
XD: Sim. Foi realmente libertador.
PCN: E a sua família como reagiu a isso?
XD: Reagiu bem. A minha família sempre esteve no negócio da carne. O meu irmão goza até de uma certa fama local.
PCN: Fama local?
XD: Sim. É conhecido como o talhante de Viana.
PCN: Sim. Claro já ouvi falar dele. E os seus pais?
XD: Não conheço a minha mãe. Desapareceu quando eu era miúda. O meu pai actualmente esta reformado e cuida de uma pequena horta biológica junta a estrada. Adora ver passar os carros...
PCN: Ver passar os carros?
XD: Sim... eu também não percebo muito bem...mas acho que ele já tem idade para fazer o que lhe apetecer.
PCN: E os seus amigos como reagiram a este seu novo lado?
XD: os que me conheciam realmente bem não ficaram admirados os outros ficaram um pouco surpresos. No final de contas perdi alguns amigos que não conseguiram lidar bem com este meu novo estatuto social. Mas ganhei outros. Pessoas muito divertidas e influentes.
PCN: Influentes?
XD: Sim. Algumas pessoas com poder mas como é óbvio não vou citar nomes. Acho que seria indelicado.
PCN: E o que tem feito ultimamente?
XD: A minha última performance foi na Serra da Estrela. Atenção que estou a revelar isto em primeira mão. Ainda não foi lançado para os media. Foi um trabalho de grupo com alguns conhecidos e envolveu a famílias inteiras, neblina intensa e muito, muito gelo. Foi absolutamente fantástico. Acredito mesmo que atingi um outro nível.
PCN: E para o futuro?
XD: Sinceramente não sei. Tenho alguns planos. Talvez escrever um livro sobre as minhas experiências mas não sei. Isso já me parece muito batido. Vamos ver para onde a vida me leva.

segunda-feira, 12 de março de 2007

Às quintas

Correr de um lado para o outro, números, previsões, sempre com um sorriso nos lábios e um tique de aceno afirmativo na direcção de um chefe acéfalo ... uma merda! E no final do dia chegar a casa e não ter nada que me estimulasse. Até o sexo já estava na fase rotineira e não havia volta a dar-lhe. Podia tê-la mandado dar uma volta mas só o transtorno de procurar outra, para passadas umas semanas andar no mesmo... e como dizia o outro: “sexo é bom mesmo quando é mau”... Andava nisto há já algum tempo e não via maneira de sair, de escapar desta vida deplorável.
Há cerca de seis meses chegou lá ao escritório mais um funcionário lambe-botas, e, eu de início não vi a coisa com bons olhos – mais um paspalho para eu aturar, como se já não me chegassem estes – mas as coisas mudaram lentamente. Foi-se instalando uma cumplicidade baseada num ódio aquela existência miserável das nove às cinco. Um mês depois ele convidou-me para ir com ele, e, ver como conseguia aguentar os dias... Uma espécie de passatempo que praticava todas as quintas depois de jantar e tomar uns copos. Eu aceitei. Se funcionava para ele também devia funcionar para min.
Nesse dia quando abri a porta de casa era já uma pessoa diferente. Tudo mudou. Comecei a fazê-lo regularmente e a minha vida passou para um outro nível. A primeira a notar foi a minha namorada, que comentava entre suspiros suados que “o sexo nunca tinha sido tão bom”. No trabalho já nada me afectava e eu andava de um lado para o outro contando mentalmente o tempo que faltava para quinta feira. Fomos ficando mais cúmplices, o Alberto e eu, e, por vezes passavam dias sem trocarmos uma palavra. Não valia a pena. Se falássemos era só para falarmos daquilo, e, aquilo era nosso, só nosso. Fui promovido pouco tempo depois, tendo até o chefe elogiado a minha nova personalidade mais forte, mais segura de si. Fingi humildade e continuamos. A vida estava cada vez melhor. Decidi despachar a namorada. Já não tinha nada de novo para oferecer. Arranjei outras. A minha vida mudou. Foi pena aquela última ter conseguido escapar e nos ter denunciado... Foi pena...

terça-feira, 6 de março de 2007

Sete

...dias da semana,
...graus da perfeição,
...esferas,
...pétalas de rosa,
...vezes me tocou,
...ramos da árvore,
...portas de Tebas,
...cordas da lira,
...cores do arco-íris,
...céus,
...lágrimas derramadas,
...estrelas da Ursa Maior,
...mares,
...anões,
...vezes me agarrou,
...pecados mortais,
...facadas,
...não me toca mais.

sábado, 3 de março de 2007

00.04.23

00.00.00 – Avançar calmamente e resignadamente até meio da ponte, olhando, pelo canto do olho, o rio e os seus inúmeros pequenos pontos de luz reflectidos metros abaixo. 00.01.47 – Agarrar com força o metal frio e áspero do corrimão. Sentir a ferrugem em contacto com a pele. Fechar os olhos. Abrir os olhos. 00.02.25 – Fechar os olhos. Respirar fundo. Abrir os olhos. 00.02.29 – Sentir a brisa húmida no rosto. Olhar o rio. Fechar os olhos. Respirar fundo. Agarrar com mais força o corrimão. Sentir a ferrugem a desprender do metal velho e corroído. 00.02.54 – Tirar o sapato direito com o pé esquerdo. Tirar o sapato esquerdo com o pé direito. 00.03.10 – Colocar os sapatos num sítio visível. Endireitar o sapato esquerdo dois centímetros para o lado direito. 00.03.28 – Sentir o frio passar pelas meias. Encolher os dedos dos pés. Agarrar o corrimão. 00.03.35 Subir para o corrimão. 00.03.43 – Agarrar o cabo. 00.03.45 – Olhar o rio negro no horizonte. Fixar um ponto de luz. Respirar fundo. Seguir com o olhar um saco arrastado pela corrente. 00.04.06 – Hesitar. Recordar. 00.04.08 – Olhar para baixo. Olhar para o rio negro. Sentir o coração bater mais forte. 00.04.11 – Respirar fundo. Respirar. Inspirar. Expirar. 00.04.17 – Inclinar a cabeça para a frente. 00.04.18 – Recordar. 00.04.19 – Deixar-se ir. 00.04.20 – Recordar. O sorriso. O Sorriso. A chuva. As luzes. Guinar para a esquerda. O motion blur. Os vidros partidos. O sangue. A mão por cima da dele. O sangue. Os vidros. As sirenes. As luzes. O sorriso. A mão por cima da dele. 00.04.21 – O sorriso. Aquele sorriso. A mão. Aquela mão. A primeira palavra. O primeiro sorriso. O primeiro beijo. As luzes. O grito lancinante: “Cuidado!”. 00.04.22 – Branco. Negro. 00.04.23 – Tarde de mais...

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Reunião de família

Bem, lá vamos nós outra vez. Não sei porque razão continuo a ir a estas reuniões de família. Ou melhor, sei... A curiosidade é uma coisa terrível!
Da última vez que nos vimos ele estava fantástico, como sempre. Ela estava um pouco mais...mais... Como posso dizer isto? Nada me parece muito adequado, estou a falar da realeza no final de contas... Digamos que estava mais próxima da Vênus de Willendorf do que da Vénus de Milo... Acho que percebem aonde quero chegar e são dois tipos de beleza feminina perfeitamente legítimos...
Bem, é o que acontece a uma pessoa quando se habitua demasiado à boa vida. Boa comida, criados para isto, criados para aquilo...
Sim, tenho inveja! E depois? Eu sempre fui nobre, nunca me habituei a este estilo de vida que levo agora. Ela adora esfregar-me isso na cara! Adora, pois! Ela, uma rapariga do campo, habituada aos trabalhos domésticos é agora rainha do mais rico reino... e eu reduzida a uma parente pobre! A prima que eles convidam para os jantares de família por pena, ou ainda pior, por gozo.
Que culpa tenho eu de ele me ter deixado por uma morenaça de olhos verdes? Eu por acaso lá tenho culpa de ser assim tão pálida? Parece que não conhecem a história? A culpa não é minha!
Ela teve foi sorte! Teve uma fada sempre do lado dela e toda a gente sabe que com magia as coisas são sempre mais fáceis! Eu tive de lutar contra uma bruxa! Eu escapei à morte! Ela o que fez? Vestiu uma roupinha mágica, calçou aqueles sapatos horríveis e apareceu num baile! Só isso. E felicidade para sempre! Caramba! Há pessoas com sorte!
Eu lá tenho culpa que ele tenha roubado tudo para levar para os trópicos e se instalar confortavelmente com aquela rameira exótica? Ainda tentei manter a situação mas não consegui. Até a estúpida mina de ouro acabou. Nem mais uma pepita de ouro os anões conseguiram retirar de lá...
Fui obrigada a declarar falência, mudei-me para uma zona mais modesta e o palácio foi vendido em hasta pública. Advinhem quem o comprou? ELA! Claro! Só para mo atirar a cara! Onde acham que vou jantar hoje? Claro que é lá! Acreditam mesmo que é coincidência? Pois...
Tive de voltar para a floresta onde é tudo muito bonito e pacífico mas tentem tomar uma banho gelado as sete da manhã que a beleza e a paz desaparecem imediatamente. Gelado, sim... Estranhamente o gás canalizado ainda não chegou a minha área de residência. Só a minha área de residência!
Bom, estou a chegar. Já os vejo a porta, o “casal maravilha”. Vá lá, porta-te bem agora ou ainda és decapitada... não era a primeira e afinal sou só prima por casamento...
Porque é que eu ainda venho a estas coisas?Para ver que ela está cada vez mais GORDA!

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Gémeos

No dia 10 de Setembro Carlos foi atirado para a cama de um hospital com uma “doença do sangue”. Os pais entraram em choque, o seu único filho tinha leucemia. Laurinda e Afonso já tinham ouvido falar disso, já tinham visto até pedidos de pais desesperados na televisão – naqueles telejornais que duram uma eternidade e esmiuçam ao máximo a desgraça humana. Já todos vimos um desses, mas sofrer um caso assim era demais para aquele casal feliz. Sim, porque os há, os casais felizes, digo.
A vida é claro mudou: idas ao hospital, cuidados com tudo, assistência diária ao filho. Laurinda deixou o emprego e tinha os nervos em papa, parecia andar continuamente sobre o efeito de um ou dois “Valium”. Afonso continuou a sua vida de contabilista tentando manter a família, embora, no fundo já estivesse corroído pelo medo. O medo. Oh, sim, aquele medo que lhes infestava o quarto à noite, aquele cheiro a medicamentos e hospital que circulava pelo quarto como um presságio de morte, uma corrente de ar nefasto e estagnado. De manhã voltava-se a rotina diária e o sorriso de Carlos sempre ajudava a esquecer que em tempos as coisas foram melhores. Não demorou muito até Laurinda e Afonso, aparecerem eles próprios num desses noticiários com um pedido de ajuda. Gerou-se uma onda de solidariedade mas nenhum dador compatível surgia da faina e a situação complicou-se, pois Carlos enfraquecia de dia para dia. Os médicos não pareciam poder ajudar e saltavam de especialista para especialista até encontrarem o Dr. Freitas Mendonça, senhor de alta reputação académica. Ao que Laurinda e Afonso conseguiram perceber, em vez de perder um filho iriam ganhar outro.
“Uma vez que não conseguimos encontrar um dador compatível com o vosso filho podemos criar um, uma espécie de clone. Retiramos uma amostra do DNA do vosso filho, retiramos algumas imperfeições, e daqui a nove meses podem usar o cordão umbilical para salvar o Carlos” - explicou o senhor doutor.
Laurinda e Afonso nem podiam conter o entusiasmo, além de se salvar o Carlos, um filho perfeito, iriam ter um outro filho igualzinho a ele. Nem todos os casais eram assim abençoados, mas vendo bem as coisas, eles tinham sido até ao dia 10 de Setembro um casal feliz. Aceitaram de imediato, assinaram os documentos necessários e fotocopiaram os papeis importantes.
Carlos lá foi resistindo, e nove meses depois, mais coisa menos coisa nasceu Bernardo. Três quilos e seiscentas e cinquenta e três gramas de pura saúde. Os procedimentos para salvar a vida de Carlos seguiram o planeado e Carlos recuperou. Laurinda procurou novo emprego e as coisas foram voltando ao equilíbrio e até felicidade.
Os efeitos do tempo não tardaram a fazer-se sentir. Uma mancha de húmidade no canto da sala, uma foto de Bernardo aqui, um desenho no frigorífico, uma medalha de atletismo no móvel da sala, um equipamento de futebol, um diploma e mais outro, e as coisas foram mudando.
Com o passar do tempo Carlos foi sentindo que Bernardo estava a roubar parte do seu lugar naquela família mas associou tudo a ciúmes de irmão mais velho, e, Bernardo salvou-lhe a vida. Sem ele não teria sequer lugar naquela família!
Infelizmente, o carrossel não pára e as coisas foram mudando novamente... Mais fotos, diplomas, medalhas, taças foram surgindo naquela casa e foi necessário arranjar espaço, que Alfredo e Laurinda arranjaram retirando algumas coisas de Carlos. Coisas insignificantes. Mas Carlos reparou e no fundo do seu coração foi crescendo uma sensação de roubo. A vida dele estava a ser roubada! Ele podia ter sido tudo aquilo, ele podia ter tudo aquilo! Ele podia ser o Bernardo. Melhor, o Bernardo era ele. Porque é que ele tinha de ficar com os seus genes e não as suas imperfeições? Não era justo! Ele é que era o verdadeiro. O original. Porque é que ele não podia ser um atleta? Porque é que ele se constipava frequentemente? E a raiva foi crescendo, crescendo. Ficando aprisionada naquele coração e foi ganhando forças, minando todo o seu espírito e raciocínio. Tecia conspirações que invariavelmente terminavam com a morte do irmão, chegando algumas vezes a tentar por os seus planos em prática, sendo apenas impedido pelos seus pais. “Aqueles traidores egoístas!”, pelo menos foi isso que ele lhes chamou quando os enfermeiros o enfiavam na ambulância para o levarem para a “casa de repouso”.Laurinda e Afonso durante uns tempos tiveram alguma dificuldade com a sua decisão mas depois foram atingidos por uma conclusão apaziguadora: ”Tinham pelo menos um filho perfeito”.

O violino

Aquele violino velho, roçado, com manchas de madeira gasta era tudo para ele. Cuidava dele com todo o carinho que lhe era humanamente possível para um objecto que todos os outros consideravam inanimado. Era um filho. Era mais que um filho, pois esses não recebiam tanta atenção nem passavam tanto tempo com o pai como aquele violino. A esposa, Adelaide, sentiu ciúmes daquele violino, desde sempre, desde sempre... mas esses ciúmes morreram assim que ela encontrou outro homem para amar em segredo. Segredo, não será bem assim, porque ele sabia... Seria mais por força das conveniências... mas ficaram juntos. Mentiam a eles próprios, como todas as pessoas fazem quando se sentem encurraladas por aquele animal feroz que é a vida social, dizendo para si próprios à noite, quando pensavam não aguentar mais, que era pelos filhos e a coisa foi-se mantendo. Ela com o seu Ramos e ele com o seu violino. Aquele violino era tudo para ele. Era a sua primeira recordação de infância: o seu sexto aniversário! Nunca tivera dia mais feliz. Nem a primeira vez que dormira com uma mulher – graças ao violino – se aproximara daquela sensação. Reconhecia todas as curvas daquele violino, cada imperfeição que ele dizia fazer dele o violino mais perfeito do mundo. Fora ele que lhe arranjara a bolsa de estudos, era ele que lhe arranjava o salário. A sua vida entrelaçava-se nas cordas do violino. Claro que já tivera muitas ocasiões para comprar novos violinos, chegara até a comprar alguns que pairavam pelos cantos da casa, escondidos no sotão ou destruídos pelos filhos que os utilizavam como escape do ódio pelo “violino” ou até mesmo pelo pai, quem sabe? Desligou-se da vida, da família, dos amigos poucos que tinha. Aproximou-se do violino. Compunha obras fantásticas para o violino mas já raramente o tocava com receio de o estragar. Aquele violino era tudo para ele. A sua fama foi crescendo. O amor foi crescendo sem ninguém se aperceber. Fora ele que o acompanhara na infância. Na adolescência complicada de rapaz franzino e espinhoso, na juventude rápida. Esteve sempre com ele.E foi com ele que o encontraram morto com um tiro nas costas quando fugia de dois assaltantes que lhe queriam a carteira e o violino. A carteira ainda lhe tiraram mas o violino... Tiveram de lhe partir a mão em vários sítios no gabinete do médico legista.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

A aposta

- Tens a certeza que consegues?
- Tenho! Já te disse que ia até ao fim! Para de me chatear com isso. Vou para casa. Encontramo-nos no sítio combinado.
- Aposto que não o fazes!
- Cala-te! Já te disse para fechares a boca. Até amanha.
E despedindo-se com um acenar de cabeça, daqueles que se dão quando não queremos muita conversa, Filipe dobrou a esquina e seguiu para casa tal como tinha dito. João continuou o seu caminho, seguindo a Rua Mártires da Pátria, e com calma foi vendo as montras e olhando as pessoas de esguelha. Sentiu o desprezo habitual o que o fez sentir bem e sorriu discretamente enquanto caminhava.
Filipe seguiu rápido para casa. Ainda queria arrumar (ou organizar como ele dizia) umas coisas naquela noite. Não queria deixar nada para o dia seguinte nem para ninguém. Ao entrar olhou de relance para a casa e planeou a sua estratégia. Começou por arrumar a secretária, passou para os livros na estante colocando-os por ordem alfabética. Saltou para o quarto e passou a roupa a ferro, colocou a roupa no roupeiro (ou guarda vestidos, como ele dizia – resquícios de uma infância passada entre irmãs) e depois foi para a cozinha. Lavar a louça era sempre uma tarefa que ele considerava especialmente dolorosa... Para encher a banca com a louça que ele sujava eram precisos alguns dias... e isso era uma lembrança constante da sua solidão. Quando acabou foi para quarto novamente e mudou os lençóis e foi-se despindo até chegar ao chuveiro. Tomou um longo banho que o fez sentir melhor e mais quente.
João entrou em casa, acendeu a luz, ligou a televisão (não suportava aquele o silêncio na casa vazia) e foi-se acomodando, começando por retirar a incomoda gravata e os sapatos clássicos que faziam parte do conjunto a que ele chamava os “ossos do ofício” e que faziam sobressair o seu ar aristocrático. Encheu um copo alto com licor de café, acendeu um cigarro e aproximou-se da janela para observar a cidade. Saboreou o momento, o cigarro e o licor.
Deixou a sala e deslizou depois para o quarto, despiu-se, vestiu-se e enfiou-se na cama. Amanhã era um dia especial, sorriu e adormeceu.
O outro, Filipe, escreveu a carta, tal como tinham combinado, e foi-se deitar. Demorou a adormecer, afinal amanhã era um dia especial, e ele teve sempre dificuldades em adormecer antes dos dias especiais.
A manhã surgiu limpa. Os despertadores tocaram nas duas casas aproximadamente à mesma hora. Filipe desligou o seu e levantou-se, fez as coisas que sempre fazia de manhã. João simplesmente levantou-se e deixou o despertador ligado com o rádio a tocar, e fez as coisas que sempre fazia de manhã. João pegou na carta, na arma e nas balas. Filipe também pegou na arma , na bala e no envelope. Saíram, trancaram as portas e foram para o lugar combinado.
Chegaram quase ao mesmo tempo ao prédio abandonado na 5 de Julho, cumprimentaram-se com um aceno de cabeça, entraram e subiram as escadas em direcção ao terraço. Subiam, Filipe à frente e João atrás, lentamente mas com uma velocidade constante. Tinham tempo.
- Tens a certeza que consegues?
- Tenho! Já te disse que ia até ao fim!
- Aposto que não o fazes!
João já não respondeu, endureceu o olhar e continuou a andar. Sempre até ao terraço. Filipe abriu a porta com algum esforço, estava perra (anos e anos de abandono tem efeitos destes nas portas e nos corações, simplesmente deixam de funcionar correctamente.), e a luz do sol iluminou a entrada. João sentiu-se melhor, era sempre melhor fazer aquilo num dia de sol, pensou ele, se bem que pensou quase de seguida, se haveria de facto algum dia melhor para fazer aquilo. Dirigiram-se para o meio do terraço e colocaram-se um em frente ao outro. Viram que estavam muito próximos e recuaram alguns passos. João apertou a carta que trazia no bolso, com alguma força enquanto Filipe apenas confirmou que o envelope lá estava.
- Tens a certeza que consegues?
- Tenho! Cala-te com isso!
- Aposto que não o fazes!
- Cala-te! Anda, vamos acabar com isto.
- Muito bem, vamos.
João retirou a arma do outro bolso e meteu lá dentro uma bala enquanto Filipe pegou apenas na arma.
Não a vais carregar?
Já está carregada.
Andaste por aí com uma arma carregada?
Andei! Qual é o problema? Estás com medo que me magoe.
Calaram-se os dois e enquanto um esboçava um sorriso trocista o outro respondia com um sorriso quase infantil.
- Vamos?
- Sim.
Pegaram na arma e enfiaram o cano da arma na boca, olharam um para o outro, e contaram até três com os dedos e com alguns sons que já não soavam a nada. O vento assobiava e levantava as pontas de metal solto. Aos três premiram o gatilho. João conseguiu ver ainda no rosto de Filipe um sorriso de desprezo e troça...mas já não foi a tempo de parar aquele movimento fatal e caiu morto no chão. O clique vazio da arma de Filipe pareceu mais alto que a pequena explosão da arma de Filipe. Olhou para o corpo mole de João, largou no chão a bala que tinha guardada no bolso e largou no ar o envelope vazio que foi arrastado para longe pelo vento. Virou costas e dirigiu-se para a porta, dizendo em voz baixa:
- Ganhaste! Sempre foste até ao fim.
Sorriu, abriu a porta e desceu com calma.
Afinal, pensou ele, hoje é um dia especial.