sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Encontro

Enquanto caminhava sentia que já vinha tarde mas pensava constantemente que ainda dava tempo.
Tinha estado preso e não havia nada a fazer. Tinham-no vindo buscar a casa para um interrogatório. Quando ouviu o carro chegar pensou esperançosamente que tivesse chegado mais cedo mas mal afastou a cortina e os viu aproximar da porta percebeu imediatamente que era um mau sinal. Hoje não era um bom dia para o virem buscar. È claro que estava preparado mas o desanimo transparecia na sua cara barbeada de fresco.
Já tinha aquele marcado desde a última vez que tinham estado juntos. Uma sexta-feira à noite em que se sentia particularmente só, até ela aparecer.
Levaram-no para a esquadra e ele entrou calmo como de costume, já estava habituado a estas visitas. Era o melhor no seu ramo. Ao entrar, quase conseguiu sentir o cheiro dela a esvanecer, como quando ela saía da cama muito devagarinho. Estava a escapar-lhe.
Foi directo para a sala de interrogatórios e sentou-se na cadeira almofadada junto do gravador retrogrado. Pensou que talvez fosse rápido e ainda desse tempo, afinal ele já se preparava para aquilo há muito tempo. Ele entrou finalmente. Um homenzinho calvo e patético, um verdadeiro monte de lixo urbano.
Começou o interrogatório e o confronto com as provas foi esmagador, não havia maneira de escapar. Conseguiu uma confissão. Olhando para ele ninguém diria que aquele monte de esterco contemporâneo recrutava mulheres pela Internet que pouco tempo depois apareciam mutiladas a boiar no rio. Finalmente tinham-no apanhado, foi difícil mas conseguiram.
Já sentia o calor do seu corpo a deixar os lençóis foleiros que tinha na cama e enquanto caminhava sentia que já vinha tarde mas pensava que ainda havia tempo.
Quando finalmente chegou junto da porta viu o papel velho e rasgado enfiado na frincha larga entre a porta e a soleira. Só dizia isto: ”O teu tempo acabou, vemo-nos depois.” Amarrotou o papel com fúria, abriu a porta e atirou o casaco para cima do cabide. Sentou-se pesadamente no sofá e percebeu que tinha demorado imenso tempo para encontrar alguém como ela. Era cada vez mais difícil encontrar uma puta de qualidade.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

O busto

Acabei de receber as compras. A minha vida agora tem sido muito mais fácil, é só clickar e pouco tempo depois lá estão elas a ser descarregadas na porta da frente. Chegaram as tintas, o verniz o gesso, os pincéis...que encomendei há pouco. Decidi abraçar um novo hobby: o restauro. Não sou muito talentosa mas há uns dias decidi fazer umas limpezas no sótão e encontrei um busto espectacular mas um pouco danificado.
Tinha o nariz partido e algumas mazelas esbranquiçadas no pedestal negro que ainda assim não lhe conseguiam tirar a altivez. O cabelo apanhado, a gola folheada, os ombros distintos e notava-se ainda aquele porte esquecido de nobreza.
Tentei em vão descobrir quem era mas não trazia nenhuma indicação nem me lembro de ver alguém parecido nas fotos de família. As coisas com que estava encaixotado também não ofereceram qualquer pista. Não devia ter sido muito caro no entanto porque aparentava ser de gesso ou um material semelhante. Podia até ter sido feito em série mas não sei bem porquê isso não me parecia muito plausível. Decidi então, como já vos tinha dito, restaurá-lo. Talvez me revelasse alguma coisa no processo ou eu conseguisse descobrir alguma coisa no fundo da minha memória.
Decidi limpá-lo com água e um pano de algodão húmido para começar. Limpo era ainda mais difícil desviar o olhar. O branco salientava a imponência daquele rosto. Sei que é um cliché mas parecia mesmo que me seguia com o olhar.
Refiz o nariz o melhor que pude com o gesso de paris e depois branqueei-o com alguma tinta acrílica branca dissolvida em água. Quando terminei até ficou bem mas achei que havia ali qualquer coisa que não estava bem ou estava qualquer coisa em falta. Quando dei por mim estava a desenhar flores na camisa. Não sei muito bem como fiz aquilo mas consegui desenhar umas rosinhas vermelhas muito pequeninas protegidas por três folhas escuras. Fiquei surpreendida comigo própria e estava com vontade de continuar mas já era tarde e decidi parar para comer qualquer coisa. Mais uma vez parecia seguir-me pela casa e tive de o tapar com um pano para poder comer mas mesmo assim conseguia sentir o olhar a procurar-me.
Fui-me deitar mas não dormi muito bem e quando acordei só pensava em terminar o busto. Conseguia quase ver como iria ficar quando estivesse pronto. Pintei os cabelos de castanho terra queimada. Para a pele tive de fazer algumas experiências até encontrar aquele som de moreno dourado que tinha na minha cabeça. Não me consegui decidir com a cor dos olhos e acabei por pintar o dourado do travessão e do fio que trazia ao pescoço. Quando dei conta já era noite outra vez e decidi ir dormir.
Não dormi bem novamente. Sonhei com o busto toda noite. Com aquela mulher de olhos brancos que me perseguia e me dizia: - Liberta-me! Liberta-me!
Acordei ainda mais cansada do que quando me tinha deitado e assustada. Achei melhor não trabalhar no busto nesse dia mas sentia sempre o seu olhar nas minhas costas e voltei a tapá-lo. Não resultou e comecei a sentir-me um pouco pateta mas não consegui evitar de o virar para uma parede. Foi melhor mas continuava desconfortável.
Trabalhei no computador, fiz algumas compras, reguei as plantas e vi um pouco de televisão no sofá onde acabei por adormecer. Tive o mesmo sonho com aquele pedido que agora parecia desesperado: - Liberta-me! Liberta-me...
Acordei sobressaltada, olhei para o busto e avancei. Sentei-me à mesa e estava determinada a termina-lo. Tirei-lhe o trapo, virei-o para mim e comecei a misturar as tintas até encontrar um castanho luminoso que iria ocupar o seu lugar no branco dos olhos. Uns laivos mais escuros e quase conseguia ouvir aquela voz enquanto terminava.
Quando terminei fiquei a olhar para ela enquanto ela olhava para mim e juro que vi os seus lábios a mexer e o som a formar aquele pedido: - Liberta-me. Não sei bem o que se passou a seguir mas acho que com o medo devo ter atirado o busto para o chão, porque quando dei por mim ele estava estatelado no chão de costas para mim e podia ver os cacos espalhados. Pensei que estava finalmente a ficar doida por estar sempre fechada em casa. Peguei nele para avaliar os estragos ou deitá-lo fora, já não sei bem, virei-o para mim e desmaiei.
Quando acordei foi só tomar consciência do que tinha acontecido e recompor-me para fazer o que tinha de ser feito.
Aquela foi a primeira vez em três anos que saí de casa e fui até ao jardim nas traseiras que pagava ao jardineiro para embelezar todos os meses mas que eu só via da janela. Fiz uma cova e meti lá dentro a cabeça mumificada que estava escondida no interior do busto. Juntei o que restava dele, cobri tudo com terra e achei por bem fazer uma oração.
Fiquei ali alguns minutos a ouvir o vento que parecia murmurar um agradecimento para longe...

A visita

Foi difícil vê-la ali, longe. O cabelo mais curto mas com aqueles caracóis rebeldes que teimavam em surgir contra a sua vontade. Gostei especialmente daquele por baixo da orelha esquerda que lhe protegia o lóbulo e lhe escondia o brinco que não podia usar.
Era a primeira vez que a via desde algum tempo e estava ansioso. Ela deixava-me louco e podia fazer de mim gato sapato se quisesse, mas, parecia optar pelo contrário. Sempre submissa, sempre na minha defesa. Era o meu escudo contra o mundo. Protegia-me.
Não sei se o fazia por ser da sua natureza, ou, se, para me dar aquela sensação de poder que eu não tinha... Ela gostava disso, eu sei. Eu também gostava, ela sabia-o.
Os meus problemas desapareciam. Era só desabafar com ela durante o jantar ou naquela conversa morninha de cama que os meus problemas desapareciam no dia seguinte.
Não sei que tipo de amor era. Carnal, físico mental ou total...daqueles que só se encontra uma vez na vida. As coisas funcionavam bem connosco e éramos felizes. Fomos felizes aqueles anos todos. Eu não desconfiei de nada.
Não desconfiei das dívidas perdoadas nem dos prazos prolongados e entreguei tudo à boa sorte. Agora vejo que fui ingénuo. A boa sorte não dura para sempre.
Foi mesmo difícil vê-la ali com aquele uniforme baço que lhe prendia o corpo esguio que senti vibrar mal me escutou aproximar. O sorriso fácil e solto em crescente suavizava-lhe o rosto.
Virou o rosto levemente para o lado vazio e o sorriso parou. Deve ter sentido o meu olhar que raiava a pena... Ela detestava isso. Era só saudade mal interpretada mas ainda assim tentei mudar a expressão.
Ficamos assim calados durante algum tempo até juntar coragem suficiente para lhe perguntar novamente:
- Porque é que fizeste aquilo tudo?
E ela deu-me exactamente a resposta que eu não queria ouvir:
- Pensei que já sabias... que já tinhas compreendido...
Levantou-se, disse adeus com os olhos e com o corpo, dirigindo-se em direcção ao guarda que a levou de volta à cela.Fomos felizes em tempos, se calhar até demais.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Seda turca

- Quer beber alguma coisa?
- Quero. Mas trata-me por tu. Estamos entre amigos aqui.
- Estamos? Não conheço ninguém.
- Nem eu, mas estamos no nosso ambiente. São todos como nós.
- Como nós?
- Sim. Solitários à procura de um pouco de diversão. Não é isso que queres? Que queremos todos?
- Não sei. Não costumo falar pelos outros...
- Nós falamos sempre pelos outros. Falamos mais pelos outros do que por nós próprios, mas seja... Não é isso que queres?
- Isso o quê?
- ...diversão...
- Sim. Acho que sim.
- Achas?
- Não foi para isso que vim mas não me importo se levar alguma para casa.
- Nem eu.
- Já temos algo em comum...
- E onde é essa casa para onde a levarias?
- Ela quem?
- A diversão...
- Não é bem uma casa. É mais um quarto de hotel.
- Ainda melhor. Mais diversão podes levar para lá, nunca ficas com remorsos pelos estragos que fazes.
- Estragos?
- Sim. Estragos. Mobília marcada, quadros caídos, jarras partidas e candeeiros tombados...coisas assim.
- ...
- Não olhes assim para mim, fico embaraçada. O que é que foi? Nunca te aconteceu partires uma jarra ou tombar um candeeiro numa altura ou noutra?
- Não...
- É pena...tens de experimentar.
- Parece que sim.
- Mas onde é esse quarto de hotel?
- Na baixa. O “Lindley”.
- Tu estas no “Lindley”?
- Estou.
- Aquilo é fantástico. Só lá estive uma vez mas adorei. É mesmo muito bom.
- Queres ir lá outra vez?
- Fazer o quê?
- Não sei. Talvez divertires-te um pouco. Não é isso que queres? Não é isso que queremos todos?
- Aprendes rápido. Pode ser. Talvez ainda partas uma jarra ou duas...
- Quem sabe?
- Vamos?
- Vamos. Vou só pagar a conta e apanhamos um táxi à porta.
- Um cavalheiro...



- Então? Como correu?
- Correu tudo como previsto.
- Quando achas que o vão encontrar?
- Amanha de manha. O serviço de quartos vai dar com ele.
- Qual vai ser o resultado da autópsia?
- Overdose.
- Ele deu conta de alguma coisa?
- Não. Nem deu conta do que lhe aconteceu. Já sabes como sou. Sou sempre muito suave.
- Suave, suave... como seda turca.

sábado, 21 de julho de 2007

Merimvau

“Eu sou Merimvau e tudo isto é meu. Aqui, além e adiante. Este é o meu domínio. Quem ultrapassar os seus domínios sem ser convidado será destruído. A solidão é um privilégio que a mim concedo.”
Era o que dizia um dos letreiros, escritos à mão em tinta vermelha, espelhados a intervalos regulares ao redor da propriedade. Nunca nada, nem ninguém, lá entrava, e, nunca nada, nem ninguém, de lá saía. Não havia cultivo dos campos nem cuidados com o jardim. A relva parecia nunca crescer mais que dez centímetros e os corvos não sobrevoavam sequer os campos. Pareciam ter lido também os avisos.
Por vezes, nas raras noites limpas, era possível verem-se as luzes a acender e a apagar como se alguém estivesse a atravessar as diferentes divisões da casa e fosse alumiando o seu caminho. Era estranho. Simplesmente estranho.
Ninguém sabia a sua idade e ninguém se lembrava sequer de o ter visto, mas... corriam os boatos. “...Quem tinha ignorado o aviso nunca mais tinha voltado...” diziam as pessoas num tom de voz decrescente e olhando inclinadas para o chão com aquela expressão de saudade, como se lhes tivesse desaparecido alguém próximo. Também havia um outro pormenor estranho que favorecia a intriga e afastava os curiosos: a cerca. O ar, quente, húmido e metanoso da região pantanosa fazia com que tudo apodrecesse mais rapidamente, mas, aquela cerca de madeira polida, sem qualquer adorno, continuava como sempre esteve - impecável.
Uma vez, dizem as vozes sussurrantes, foi atingida por um raio numa daquelas velhas tempestades tropicais e todos a viram arder mas no dia seguinte lá estava ela como sempre esteve. Ninguém a viu ser reparada. Ninguém viu nada.
Um dos comerciantes locais com quem travei amizade disse que se eu não acreditasse podia sempre fazer o mesmo que os outros: “Faça uma marca numa das tábuas, espere, e, veja se ela ainda lá está depois do Sol nascer”.
Não fiz uma, fiz várias marcas em tábuas diferentes e esperei como um observador da BBC camuflado pelas plantas. Não aconteceu nada durante toda a noite mas mal o sol nasceu fui inspeccionar e as tábuas estavam como sempre estiveram – impecáveis.
Definitivamente afastava os curiosos. Afastou-me a mim. Um homem pode não ser uma ilha mas pode ser um rochedo ermo e vazio se tiver uma cerca suficientemente forte, afinal, a solidão não é mais que um privilégio que concedemos a nós próprios.

domingo, 15 de julho de 2007

Areia

A princípio não lhe era uma sensação estranha. Nem má. Aqueles pequenos grãos arredondados a entranharem-se por entre os dedos dos pés fizeram-no deslizar para um tempo em que ainda era livre. Lembrou-se das idas à praia nos fins-de-semana escaldantes. Das sombras projectadas na minúscula tenda às riscas. Do encher dos baldes. Daquela espuma salgada e instantânea que nunca conseguia agarrar. Lembrou-se dos castelos, de sonhar.
Não sabia bem se era da areia ou das drogas mas sentia-se nostálgico. Quanto mais areia sentia mais se recordava. As brincadeiras com os amigos de ocasião. Os jogos de futebol nos areais imensos. As corridas. Os empurrões para a água fresca e viva.
Não sabia bem porque se tinham lembrado de fazer aquilo mas também não interessava muito. Não se sentia mal e isso era o mais importante. Era por isso que tomava sempre mais uma dose, para não se sentir mal. E outra. E outra...
A areia caiu no peito e sentiu os corpos bronzeados. Suados. Ásperos do sal e da areia que se enroscavam nas toalhas mal estendidas por trás de um pára-vento mal amanhado. Ainda era livre nessa altura. Sentia-o e sabia-o agora que já não o era há algum tempo.
Tentou posicionar-se melhor mas sentiu alguma dificuldade em mover as pernas. Sentiu a areia mais pesada sobre o peito. Os movimentos saiam em câmara lenta e aprisionados pelas fortes amarras da areia molhada. Tudo parecia estar a acontecer a ritmos diferentes ou eles eram mais rápidos e mais fortes do que ele. Berrou mas eles não ouviram, ou se ouviram, já não estavam ali. Eles também não eram livres. Já não o eram há algum tempo.
Susteve a respiração e sentiu o peso da areia húmida a comprimir o peito, os pulmões prestes a explodir naquele tronco estreito. Forçou a situação o mais que pôde mas já podia sentir a areia a invadir os sentidos.
Não aguentou, e, a torrente de areia forçou a sua entrada. Sufocou em silêncio num túmulo de areia, água e sal.Os outros ainda continuaram a deitar areia durante algum tempo. Talvez daqui a um dia ou dois se lembrem do que fizeram. Ou não.

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Roupa nova

Era vê-la sentada de lado, virada para a imensidão de sacos que viajavam a seu lado numa qualquer viagem de metro. Uma daquelas igual a tantas outras que nada tem de extraordinário excepto, por vezes, aquela borboleta que entra a voar em círculos para sair na estação seguinte.
Lá ia ela espreitando as compras com um ar de criança num parque de diversões, com tantos sítios para ir que não se sabe bem o que escolher. Ela emanava uma felicidade juvenil que todos na carruagem conseguiam sentir, e, ela já não aguentando o desejo , olha para um lado e para o outro, como quem atravessa a rua e começa a retirar de uma das sacas, ao calhas, uma das peças de roupa nova. Estende-a em cima das coxas. Corta a etiqueta com a chama rápida do isqueiro e levanta-a no ar para a ver uma outra vez. Uma camisola preta de manga ¾ a imitar um casaco de trespasse. Dobra-a cuidadosamente. Outra. E mais outra. Umas calças pretas de cinta descida, um blaser preto com remendos nos cotovelos e uma aplicação prata na gola, uns jeans pretos, uma blusa clássica preta, uma blusa de estilo oriental com motivos antracite, top’s pretos, t’shirts pretas, ... Outra. E mais outra.
O brilho nos olhos aumentava a cada peça nova que pegava e as pupilas pareciam até dilatar para um tamanho fora do normal, transformando os seus pequenos olhos castanhos em dois botões negros.
Pegou em todas as peças que tinha dobrado cuidadosamente e tentou meter tudo dentro da maior e mais discreta saca que trazia consigo. Não conseguiu e ficou um pouco atrapalhada, como se quisesse esconder a roupa nova que antes mostrara a quem quisesse ver. O aviso sonoro indicou a próxima estação e a aflição cresceu, acabando por meter parte da roupa numa saca translúcida com letras laranja vivo. Levantou-se, respirou fundo, carregou no botão para abertura da porta e saiu o mais discretamente possível. Acredito que não quisesse dar nas vistas, as más línguas nunca são muito simpáticas para as viúvas recentes.

Página em branco

Onde é que ela tinha ido? O que tinha feito? Teria sido feliz? Infeliz? Teria saído sozinha? Foi um dia para esquecer ou um dia insignificante?
Aquela página em branco tolhia-lhe o espírito.
Ela tinha partido há cinco meses, três dias e vinte e uma horas, e, desde aí ele tinha lido todos os seus diários para a manter viva. Leu-os mais de que uma vez, repetidamente, até saber todas as palavras, todas as vírgulas e todas as pausas. Ao fim de um tempo recordava-se da vida dela como se fosse a dele. Todos os pormenores, todos os detalhes estavam ali transcritos naquela letra de professora primária. Não saltou sequer aqueles momentos embaraçosos que nenhum marido quer verdadeiramente saber. Leu tudo e para ele era como ter estado com ela todos os dias da sua vida. Todos, excepto aquele. Uma página em branco com a data cuidadosamente escrita numa imensidão de linhas em branco que pareciam não ter fim. 8 de Julho de 2002. A escrita tão cuidadosa que as próprias curvas das letras davam a sensação de aquele ter sido um dia diferente e especial até. Ela não avançou a data como já tinha feito com outros dias. Deixou a folha em branco para recordar. Mas o quê? O quê?
Era só um dia que não tinha sido partilhado com ele mas se ele não soubesse nada sobre esse dia então também não sabia nada sobre ela. Era mais uma estranha com que se tinha cruzado e isso era um pensamento aterrador. Lia e fazia esquemas temporais, ligava à família, aos amigos, aos colegas de trabalho, vasculhou jornais e procurou recibos antigos. Nada. Era um vazio insuportável que ninguém conseguia preencher. Desleixou-se de tudo menos da vida dela e daquele dia, daquela página em branco. Foi-se esquecendo de si. Confundiu a sua vida com a dela e vivia num limbo de memórias falsas, num quarto imundo de recortes, fotos, esquemas, calendários e folhas de diários espalhadas pelos cantos e estragadas pela humidade forçada do quarto.
Quando as pessoas nos fogem agarramo-nos à mais pequena coisa para as trazer de volta para junto de nós, mesmo que essa coisa seja uma insignificante página em branco num diário velho.

terça-feira, 19 de junho de 2007

Bicho que a gente come...Parte dois

...
Não sei quantas horas estive inconsciente. Só me lembro daquele episódio repugnante que preferia esquecer. Devo ter desmaiado de seguida. Está tudo muito silencioso. Sinto-me fraco e apesar de tudo o que se passou sinto fome. Devo ter estado inconsciente mais tempo do que aquele que penso.
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Eles estão mortos. Todos. Por todo lado vejo vermes esticados. Funcionou. Morreram todos. Finalmente estamos livres. Vamos poder voltar para as nossas casas e os nossos países.
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Continuo com fome. Por mais frutos que coma continuo com fome. Sinto-me fraco.
...
Passaram dez dias desde que acordei. Continuo com fome. Sinto-me cada vez mais fraco.
...
Estou cada vez mais fraco e mais forte. Não sei explicar. Sinto uma fome como nunca senti mas por outro lado os meus sentidos estão cada vez mais eficazes, consigo percorrer distâncias incríveis num curto espaço de tempo e a minha força aumentou consideravelmente. Continuo com fome.
...
Vinte dias. Continuo com fome.
...
Já não sei quanto tempo. Já só sinto fome.
...
Fome.
...
Fome.
...
Ouvi passos distantes. Dirijo-me para lá mesmo antes de pensar nisso. Será que finalmente me vieram buscar? Ouço vozes, conversas soltas trazidas pelo vento. Espero que tragam comida. Tenho tanta fome.
...
Encontrei-os. São um grupo de cinco. Armados. Militares de reconhecimento. Há qualquer coisa que não está bem. Não vou ter com eles e espero pelo momento certo. A chuva começa a cair. Continuo a segui-los de perto.
...
Encurralei-os numa escarpa. Alguma coisa está a tomar conta de mim.
...
A fome. Não consigo controla-la. Ataco-os de surpresa e sem piedade. As armas não me atrasam e as minhas feridas parecem sarar logo de seguida. Tento resistir mas não consigo. A fome tomou conta de mim. Sinto o odor do sangue a entrar-me no nariz, a inundar-me os pulmões e a inebriar-me os sentidos. Desfaço um dos cadáveres com os dentes. E mais um. E outro. Até não restar nenhum vestígio deles.
...
Levanto-me e vejo o meu reflexo numa poça de agua. O rosto ensanguentado e penso...
...
Parece que é verdade... sempre somos aquilo que comemos.
...
Tenho fome. Muita fome.
...
Acho que vou para casa. Não vão negar entrada a um dos seus.
...

Leonardo

Era uma pessoa normal, tanto quanto se pode ser. Um pouco isolado talvez, e conheciam-se-lhe poucos romances. Falava pouco com os vizinhos, só o estritamente necessário. Tinha um carro pequeno, branco e barato. Poderia até dizer-se que era uma pessoa triste não fossem aqueles dias em que aparecia com um sorriso de alegria secreta e maliciosa.
Começou a trabalhar lá no museu mal saiu da faculdade e foi subindo de posto. Era um trabalhador exemplar. Não havia trabalho que ficasse por fazer, nem que para isso tivesse que trabalhar a noite toda. Falava tanto com os colegas como falava com os vizinhos. Almoçava sozinho os restos do jantar que trazia de casa e que aquecia suavemente no microondas da sala comum. Fazia isto o mais rápido que podia e depois ia passear pelo museu. Gastava os seus restantes 56 minutos de pausa para almoço a passear pelo local de trabalho. Alguns consideravam isto estranho mas ele nem sequer prestava atenção aos comentários. Era vê-lo circular calmamente pelo museu e parar sem aviso prévio para ficar a admirar uma peça nova. Nos dias seguintes apenas aquela peça interessa...Até parecer ter retirado toda a informação, todas as mudanças de cor e luz, o pormenor das pinceladas curtas e precisas. Depois volta à rotina dos passeios até encontrar uma nova vítima para analisar com os seus olhos luminosos. È assim que o encontramos hoje: a olhar para uma peça nova como se não existisse mais nada para ver. Um estado hipnótico quebrado apenas pelo lembrete do telemóvel indicando que está na hora de ir trabalhar.
O trabalho na secção hoje está atrasado e mais uma vez voluntariou-se para umas horas extraordinárias. Diz ele que não tem família em casa e o dinheiro faz-lhe jeito. Na verdade não precisa mas quer vir para o museu.
Vai a casa tomar um banho, trocar para uma roupa mais confortável e jantar qualquer coisa rápida. Pega na caixa dos comprimidos e sai. Tudo muito rápido com ansiedade crescente para não chegar tarde. Entre no café da frente e compra cinco cafés para levar, acelera o passo ao atravessar a rua e chega ao museu no momento exacto: a troca de turnos. Oferece dois cafés aos seguranças da noite que sorriem e agradecem a amabilidade inocente, uma coisa rara.
Ruma para a sua sala bebendo calmamente um dos cafés restantes. Adianta algum serviço enquanto controla o tempo.
Vinte minutos devem ser suficientes.
Sai da sala silenciosamente e esgueirando-se para não ser visto pelas câmaras dirige-se ao gabinete de segurança. Dormem os dois nas cadeiras. Aproxima-se, desliga os alarmes e põe o sistema de vídeo em loop. As coisas que se conseguem aprender na Internet são realmente fantásticas. Ao ir para a secção 3 passa na sua sala e apanha o porta-projectos que tinha trazido dois dias antes e a sua pequena mala de ferramentas.
Pára diante do quadro, retira-o da parede e vira-o ao contrario. Retira a tela com muito cuidado e substitui-a pela cópia que fez em casa, pormenor a pormenor. Coloca tudo no sítio e confirma os pormenores. Guarda o porta-projectos e a mala na sua sala, pega nos dois cafés extra e volta ao gabinete de segurança. Substitui os cafés dos seguranças, deixa-os com a mesma quantidade de líquido e no mesmo local, activa os alarmes e retira as câmaras do loop. Volta sorrateiramente para a sua sala, fecha a porta atrás de si e continua o seu trabalho como se nada se tivesse passado.
Acabou o trabalho. Vai para casa e a ansiedade agora parece surgir do nada, mal consegue rodar a chave e entra em casa com uma azelhice descabida. Coloca a tela na parede, acende a lareira e senta-se no sofá. Admira-a. Absorve todo o seu conteúdo. Agora é sua. Fica assim durante horas até já não haver mais nada para olhar porque já faz parte dele.
Levanta-se, retira-a da parede e atira-a para a lareira. Para junto das cinzas das outras, e, nem sequer olha para trás quando se desfaz em labaredas soltando aquele odor metalo-químico da tinta.
Sobe as escadas e vai tomar um banho. Já são horas de voltar ao trabalho.