quinta-feira, 28 de junho de 2007

Página em branco

Onde é que ela tinha ido? O que tinha feito? Teria sido feliz? Infeliz? Teria saído sozinha? Foi um dia para esquecer ou um dia insignificante?
Aquela página em branco tolhia-lhe o espírito.
Ela tinha partido há cinco meses, três dias e vinte e uma horas, e, desde aí ele tinha lido todos os seus diários para a manter viva. Leu-os mais de que uma vez, repetidamente, até saber todas as palavras, todas as vírgulas e todas as pausas. Ao fim de um tempo recordava-se da vida dela como se fosse a dele. Todos os pormenores, todos os detalhes estavam ali transcritos naquela letra de professora primária. Não saltou sequer aqueles momentos embaraçosos que nenhum marido quer verdadeiramente saber. Leu tudo e para ele era como ter estado com ela todos os dias da sua vida. Todos, excepto aquele. Uma página em branco com a data cuidadosamente escrita numa imensidão de linhas em branco que pareciam não ter fim. 8 de Julho de 2002. A escrita tão cuidadosa que as próprias curvas das letras davam a sensação de aquele ter sido um dia diferente e especial até. Ela não avançou a data como já tinha feito com outros dias. Deixou a folha em branco para recordar. Mas o quê? O quê?
Era só um dia que não tinha sido partilhado com ele mas se ele não soubesse nada sobre esse dia então também não sabia nada sobre ela. Era mais uma estranha com que se tinha cruzado e isso era um pensamento aterrador. Lia e fazia esquemas temporais, ligava à família, aos amigos, aos colegas de trabalho, vasculhou jornais e procurou recibos antigos. Nada. Era um vazio insuportável que ninguém conseguia preencher. Desleixou-se de tudo menos da vida dela e daquele dia, daquela página em branco. Foi-se esquecendo de si. Confundiu a sua vida com a dela e vivia num limbo de memórias falsas, num quarto imundo de recortes, fotos, esquemas, calendários e folhas de diários espalhadas pelos cantos e estragadas pela humidade forçada do quarto.
Quando as pessoas nos fogem agarramo-nos à mais pequena coisa para as trazer de volta para junto de nós, mesmo que essa coisa seja uma insignificante página em branco num diário velho.

terça-feira, 19 de junho de 2007

Bicho que a gente come...Parte dois

...
Não sei quantas horas estive inconsciente. Só me lembro daquele episódio repugnante que preferia esquecer. Devo ter desmaiado de seguida. Está tudo muito silencioso. Sinto-me fraco e apesar de tudo o que se passou sinto fome. Devo ter estado inconsciente mais tempo do que aquele que penso.
...
Eles estão mortos. Todos. Por todo lado vejo vermes esticados. Funcionou. Morreram todos. Finalmente estamos livres. Vamos poder voltar para as nossas casas e os nossos países.
...
Continuo com fome. Por mais frutos que coma continuo com fome. Sinto-me fraco.
...
Passaram dez dias desde que acordei. Continuo com fome. Sinto-me cada vez mais fraco.
...
Estou cada vez mais fraco e mais forte. Não sei explicar. Sinto uma fome como nunca senti mas por outro lado os meus sentidos estão cada vez mais eficazes, consigo percorrer distâncias incríveis num curto espaço de tempo e a minha força aumentou consideravelmente. Continuo com fome.
...
Vinte dias. Continuo com fome.
...
Já não sei quanto tempo. Já só sinto fome.
...
Fome.
...
Fome.
...
Ouvi passos distantes. Dirijo-me para lá mesmo antes de pensar nisso. Será que finalmente me vieram buscar? Ouço vozes, conversas soltas trazidas pelo vento. Espero que tragam comida. Tenho tanta fome.
...
Encontrei-os. São um grupo de cinco. Armados. Militares de reconhecimento. Há qualquer coisa que não está bem. Não vou ter com eles e espero pelo momento certo. A chuva começa a cair. Continuo a segui-los de perto.
...
Encurralei-os numa escarpa. Alguma coisa está a tomar conta de mim.
...
A fome. Não consigo controla-la. Ataco-os de surpresa e sem piedade. As armas não me atrasam e as minhas feridas parecem sarar logo de seguida. Tento resistir mas não consigo. A fome tomou conta de mim. Sinto o odor do sangue a entrar-me no nariz, a inundar-me os pulmões e a inebriar-me os sentidos. Desfaço um dos cadáveres com os dentes. E mais um. E outro. Até não restar nenhum vestígio deles.
...
Levanto-me e vejo o meu reflexo numa poça de agua. O rosto ensanguentado e penso...
...
Parece que é verdade... sempre somos aquilo que comemos.
...
Tenho fome. Muita fome.
...
Acho que vou para casa. Não vão negar entrada a um dos seus.
...

Leonardo

Era uma pessoa normal, tanto quanto se pode ser. Um pouco isolado talvez, e conheciam-se-lhe poucos romances. Falava pouco com os vizinhos, só o estritamente necessário. Tinha um carro pequeno, branco e barato. Poderia até dizer-se que era uma pessoa triste não fossem aqueles dias em que aparecia com um sorriso de alegria secreta e maliciosa.
Começou a trabalhar lá no museu mal saiu da faculdade e foi subindo de posto. Era um trabalhador exemplar. Não havia trabalho que ficasse por fazer, nem que para isso tivesse que trabalhar a noite toda. Falava tanto com os colegas como falava com os vizinhos. Almoçava sozinho os restos do jantar que trazia de casa e que aquecia suavemente no microondas da sala comum. Fazia isto o mais rápido que podia e depois ia passear pelo museu. Gastava os seus restantes 56 minutos de pausa para almoço a passear pelo local de trabalho. Alguns consideravam isto estranho mas ele nem sequer prestava atenção aos comentários. Era vê-lo circular calmamente pelo museu e parar sem aviso prévio para ficar a admirar uma peça nova. Nos dias seguintes apenas aquela peça interessa...Até parecer ter retirado toda a informação, todas as mudanças de cor e luz, o pormenor das pinceladas curtas e precisas. Depois volta à rotina dos passeios até encontrar uma nova vítima para analisar com os seus olhos luminosos. È assim que o encontramos hoje: a olhar para uma peça nova como se não existisse mais nada para ver. Um estado hipnótico quebrado apenas pelo lembrete do telemóvel indicando que está na hora de ir trabalhar.
O trabalho na secção hoje está atrasado e mais uma vez voluntariou-se para umas horas extraordinárias. Diz ele que não tem família em casa e o dinheiro faz-lhe jeito. Na verdade não precisa mas quer vir para o museu.
Vai a casa tomar um banho, trocar para uma roupa mais confortável e jantar qualquer coisa rápida. Pega na caixa dos comprimidos e sai. Tudo muito rápido com ansiedade crescente para não chegar tarde. Entre no café da frente e compra cinco cafés para levar, acelera o passo ao atravessar a rua e chega ao museu no momento exacto: a troca de turnos. Oferece dois cafés aos seguranças da noite que sorriem e agradecem a amabilidade inocente, uma coisa rara.
Ruma para a sua sala bebendo calmamente um dos cafés restantes. Adianta algum serviço enquanto controla o tempo.
Vinte minutos devem ser suficientes.
Sai da sala silenciosamente e esgueirando-se para não ser visto pelas câmaras dirige-se ao gabinete de segurança. Dormem os dois nas cadeiras. Aproxima-se, desliga os alarmes e põe o sistema de vídeo em loop. As coisas que se conseguem aprender na Internet são realmente fantásticas. Ao ir para a secção 3 passa na sua sala e apanha o porta-projectos que tinha trazido dois dias antes e a sua pequena mala de ferramentas.
Pára diante do quadro, retira-o da parede e vira-o ao contrario. Retira a tela com muito cuidado e substitui-a pela cópia que fez em casa, pormenor a pormenor. Coloca tudo no sítio e confirma os pormenores. Guarda o porta-projectos e a mala na sua sala, pega nos dois cafés extra e volta ao gabinete de segurança. Substitui os cafés dos seguranças, deixa-os com a mesma quantidade de líquido e no mesmo local, activa os alarmes e retira as câmaras do loop. Volta sorrateiramente para a sua sala, fecha a porta atrás de si e continua o seu trabalho como se nada se tivesse passado.
Acabou o trabalho. Vai para casa e a ansiedade agora parece surgir do nada, mal consegue rodar a chave e entra em casa com uma azelhice descabida. Coloca a tela na parede, acende a lareira e senta-se no sofá. Admira-a. Absorve todo o seu conteúdo. Agora é sua. Fica assim durante horas até já não haver mais nada para olhar porque já faz parte dele.
Levanta-se, retira-a da parede e atira-a para a lareira. Para junto das cinzas das outras, e, nem sequer olha para trás quando se desfaz em labaredas soltando aquele odor metalo-químico da tinta.
Sobe as escadas e vai tomar um banho. Já são horas de voltar ao trabalho.

sexta-feira, 8 de junho de 2007

Bicho que a gente come...

Não se sabe bem como chegaram mas foi à cerca de dez anos. Parece um lugar comum batido num filme de ficção B mas é verdade. Destruíram tudo o que apanharam . Mataram milhões de pessoas e outras tantas tiveram de abandonar as suas casas. Agora vivemos nos pólos e nos desertos. Os extremos não são bons para nós, mas também não são para eles, e, impedem-nos de atacar. Ficamos protegidos aqui, por enquanto. O clima está a mudar rapidamente...
Ainda não se conseguiu descobrir uma fraqueza, um calcanhar de Aquiles. Resistem a tudo, regeneram-se, e, quando cortamos ou esmagamos um, surgem dois. Nada parece funcionar e o seu apetite não para de crescer. Mal sentem a presa multiplicam-se exponencialmente em poucos minutos e atacam, Rodeiam a presa como formigas e em menos de cinco minutos alimentam-se de um ser humano. É impossível escapar. Se nos encurralam passámos a história.
Não é um espectáculo bonito de se ver.
...
Trabalho no CIB(A) – Centro de Investigação Biológica, secção do Alasca. Aqui estamos reunidos, militares e cientistas de todas as partes do antigo mundo, para tentar encontrar uma saída. Uma maneira de os destruir. Eu fui o escolhido para pilotar o avião que vai testar a 136, um químico de acção letal que tem funcionado bem nas simulações de laboratório. Vou aspergir quase toda a floresta tropical. Estão todos confiantes e acreditam que vamos reconquistar as nossas casas. Eu não crio muitas esperanças, afinal é a arma 136, mas ainda assim estou ansioso. Estamos todos. Ninguém se aventura para essas regiões há dois anos. Mas eu vou. Amanhã.
...
A paisagem é linda. Verde. Infindável. Devia ser assim antes das madeireiras terem acabado com ela. Deve ser por isso que ela os abriga. Uma pequena vingança fria. Já ando a sobrevoar a floresta a cerca de duas horas. Ainda tenho combustível e 136 para mais de três horas mas só daqui a alguns dias saberemos o resultado.
...
Um dos motores falhou e tentei aterrar numa clareira, não sei bem porquê, afinal vou morrer e vou ... e uma explosão é sempre mais agradável do que o que me espera, mas nunca se sabe: o 136 pode ser mais rápido e eficaz do que se pensa.
...
Não é. Perseguiram-me toda a noite. Ouço-os moverem-se rapidamente no escuro e sinto o odor fétido característico. Corro sem ver para onde vou nem o que se passa a minha volta. Não quero morrer assim.
...
Fiquei encurralado numa parede de pedra. Corri até não poder mais e quando me virei já lá estava um. Não posso subir nem fugir, já o consigo ver a dividir. Vejo outros a chegar. Aqueles vermes nojentos com dentes afiados. Umas sanguessugas verdes com um apetite voraz. Eram dois, agora quatro. Daqui a pouco oito e depois dezasseis. Quando der conta já não existo debaixo de uma imensidão de vermes que me arrancam a carne como um exército de formigas assassinas. Um deles avança para mim e sinto medo. A adrenalina dispara e lembro-me de uma coisa que me diziam quando era puto. Agarro o que se dirige para mim e arranco-lhe a cabeça com uma dentada. Como-o Como-os a todos. Um por um. Uma gelatina viscosa e verde com alguns pedaços de cartilagem crocante que me dão voltas ao estômago. Mastigo bem. Um por um e imagino que são coxinhas de rã. Mastigo bem e sinto estômago a dar voltas e a revoltar-se. Aguento. Como-os a todos. “Bicho que a gente come é bicho que não come a gente” – dizia a minha avó Anabela.
...

Vértice

Fico sempre triste neste dia... foi a última vez que o vi. A saudade é uma dor de quebra. Nunca mais fiquei completa. Era o amor da minha vida. Aquele Amor.
Ele apareceu no restaurante pela primeira vez a uma terça à noite, pediu o prato do dia e comeu sozinho. Tinha um ar tão sozinho. Voltou na quinta e atendi-o novamente.
Ele era bem parecido e aquele fato cinzento fazia parecer importante. Não resisti e meti conversa. Ele também. Voltou Sexta, depois segunda, depois quarta... foi voltando. Foi assim que começou. Saíamos à noite, depois da cozinha fechar, e, éramos felizes. Muito. Ao fim de seis meses engravidei. Acidentalmente. Não sabia como lhe havia de dizer. Não disse. Tive medo que pensasse que o estava a tentar prender. Decidi esperar e guardar segredo por uns dias. Agora penso que não o devia ter feito, mas fiz. Foi a minha escolha.
Ele desapareceu. Nunca chegou a saber que tinha uma filha. Nunca a chegou a conhecer. A nossa filha. E a nossa neta. A minha filha é mais parecida comigo mas a minha neta é a cara chapada dele. Tem aquele aspecto importante e o tempo parece não passar por ela como passa para toda a gente. É linda. É a alegria e orgulho desta casa. Nunca as conheceu... é uma pena. É uma dor que não se apaga.
Tanto quanto sei abandonou-me. Sem uma palavra. Sem uma notícia. Abandonou-nos, a mim, e, a minha filha. Abandonou-nos, a nós, e, a mulher. Foi ela que apresentou queixa. Nunca mais ninguém o viu mas não consigo guardar mágoa... e, se ele voltasse, eu ia estar de braços abertos para o agarrar e jamais o ia deixar partir outra vez. Seria meu para sempre.

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Passion fruit

Ultimamente ando tão cansada. Tão cansada. Tudo me cansa: descer da cama, descer as escadas, abrir a água, ligar o fogão, abrir os olhos, fechar os olhos. Tudo. Ando assim há uns meses mas a vida continua. Uma pessoa esforça-se. O pior são mesmo os dentes que começaram a ceder. É a idade. Só me sinto bem de tarde, no jardim, quando me sento à sombra da minha árvore do maracujá. Tem sido a minha companhia. O meu apoio. E tem dado os seus frutos. Uns frutos deliciosos. Toda a gente o diz e me pergunta qual o meu segredo. O meu segredo? Amor e carinho.
Veio connosco, comigo e com o meu marido para esta casa. É a nossa fruta favorita. Plantamo-la com juras de paixão eterna na primeira lua cheia de Abril. Nos primeiros anos os frutos eram pequenos e mirrados e podia dizer-se que a árvore era anã. Podia até ser um símbolo do que se tinha tornado o nosso casamento. O Fredo trabalhava até tarde no escritório, dizia ele, mas chegava a cheirar a vinho e a pêgas. Vivia num choro constante. A árvore parecia compreender.
Um dia não aguentei mais e disse-lhe que me ia embora. Ele agarrou-me e bateu-me. Bateu-me. Saí a correr para o jardim para fugir. Ele correu atrás de mim, tropeçou numa das raízes salientes da árvore e caiu em cima de um ancinho da horta. Morreu ali. Sem gritos nem dor. Não chorei. Sem gritos nem dor. Peguei numa pá e escavei cuidadosamente por baixo da árvore do maracujá, tentando não estragar as raízes e enterrei-o. No dia seguinte de manhã fui à polícia apresentar queixa de desaparecimento do meu Fredo. Aí sim. Dor e gritos. Para todos os efeitos saiu depois do jantar e não voltou. Nem vai voltar é claro. Ao que parece o meu Fredo já era conhecido da polícia e ninguém se preocupou muito com ele. Nem eu com isso.
A árvore cresceu. Cuido dela como cuidava dele. Dou-lhe todo o meu carinho e ela corresponde. Cresce forte e dá-me os seus frutos deliciosos que é mais do que aquele ingrato me deu. Nos dias bons penso que é ele que... disparates.
Ela está aqui para mim. Adoro vir para aqui de tarde.Ando tão cansada. Tão cansada. Vou dormir um bocadinho.

Desvitalização

Quando é que descobri isto?
Não sei bem. Talvez há uns dois, três anos. Na altura tinha começado a trabalhar por conta própria e também me começaram a aparecer as primeiras rugas de expressão. Odeio rugas. Comecei a vê-las, a estudá-las. Optei pelos cremes. Nada. Lá estavam elas todos os dias, à noite, no espelho, quando o efeito do creme passava. Quer dizer, sempre não. Um dia apareceram bastante reduzidas e algumas quase nem se notavam. Fiquei especada em frente ao espelho a tentar perceber o que tinha feito de diferente, que creme novo tinha posto. E nada me veio a cabeça. Um dia como os outros. pensei: ”finalmente o dinheiro dos cremes vai render”. Uma semana depois estava especada outra vez em frente ao espelho. As rugas tinham desaparecido todas. Todas. Dei voltas à cabeça e finalmente vi o denominador comum entre estes meus dois dias – fiz uma desvitalização! Já não fazia uma há muito tempo. Na clínica anterior só me deixavam fazer os trabalhos menores, as limpezas e os tratamentos de cáries...
É claro que pensei: “Não sejas parva! Estás a perder o juízo e eu a ver...”. E as rugas voltaram algum tempo depois.
Surgiu a oportunidade de nova desvitalização, e, aquela ideia não me saía da cabeça pelo que decidi arranjar provas. Fotografei todos os milímetros da minha cara antes e depois da desvitalização.
Era impossível não ver, parecia uma miúda de 23 anos! Linda e jovem.
Mas voltaram. Novamente. Não suportei ver-me assim feia e velha. Retorcida e marcada. A ansiedade dava cabo de mim e já pensava desvitalizar um dente a um qualquer paciente mesmo que o dente estivesse impecável. Eu sabia que era errado mas não o podia evitar. Foi o que aconteceu mas não o podia fazer outra vez.
Já não suportava o espelho. Felizmente nesta altura apareceu no meu consultório a D. Rosália. Uma adorável velhinha de 75 anos e com uns dentes num estado lastimoso. Foram tratamentos atrás de tratamentos. E desvitalizações. A senhora adorava-me! Via a minha necessidade de desvitalizações como uma sentida preocupação com o seu bem-estar...
- Vamos desvitalizar este dente D. Rosália?
- Não filha. Deixa estar, já não vale a pena. Mais vale arrancar.
- D. Rosália, tem um sorriso tão bonito! Quer ficar agora sem dentes? Quer mesmo tirar?
- Um sorriso bonito? Pronto, está bem, vamos desvitalizar.
Adorava-me! Até me chegou a trazer uns maracujás caseiros deliciosos. Deliciosos. De chorar por mais mesmo.
Lá fui andando intercalando a D. Rosália com desvitalizações ocasionais. Cada vez mais jovem, cada vez mais bela. A situação manteve-se até ao dia em que a minha assistente me entra a correr pelo consultório e diz muito emocionada:
- Sabe quem morreu?
- Quem?
- A D. Rosália!
- Não? Não pode ser!
- Foi. Também me custa a aceitar. Uma senhora tão simpática. Morreu esta noite e encontraram-na sentada numa cadeira do jardim.
- A sério?
- Sim. Ia lá brincar com isto doutora? Coitadinha. Uma senhora tão amorosa, mas ela realmente envelheceu muito nos últimos tempos. Cada vez que a via estava mais vincada.
Fiquei em silêncio e não consegui dizer uma palavra. Como é que eu ia fazer? As desvitalizações ocasionais não eram suficientes e muito irregulares. As minhas rugas já se começavam a notar e eu estava a contar com a desvitalização da semana seguinte. Foram uns dias horríveis. Horríveis, mesmo.
A sorte deve andar do meu lado e deve ser linda também. A D. Almerinda veio ao meu consultório. Uma outra velhinha adorável. Veio também a D. Rosa, a D. Elisa e a D. Paula. Estas arrastaram outras. E os maridos. E os filhos.
A D. Rosália gostava tanto de mim que falou do meu trabalho a todas as suas amigas...

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Coisas que acontecem


Segundo me disseram isto são coisas que acontecem, mas...eu não estou muito convencido!
Estava eu a lavar descansadamente a louça do pequeno almoço quando espreito para a rua pelo canto do olho, e, não é que, vejo um filho da mãe (para não dizer outra coisa) a riscar-me o carro novinho ao passar um buraco! Até me doeu a alma! Nem sequer pensei duas vezes e saí logo a correr pelas escadas abaixo. Quase tropeçava nuns miúdos que trocavam tazos no fundo das escadas mas quando lá cheguei a besta já se tinha pisgado (nota para o próprio: IR MAIS VEZES AO GINÁSIO!) Fiquei no passeio a tentar lembrar-me da matrícula e a olhar para o meu carrinho (e a dizer mal da minha vida) quando o filho da Noémia do 3.o direito falhou um chuto e acertou com a bola num vaso da senhora Henriqueta do 2.o andar. As tulipas amarelas caíram-me mesmo em cheio na cabeça. O vaso também foi mesmo em cheio, é claro.
Caí estatelado no chão! Segundo me disseram não havia meio de acordar, por isso, acharam por bem chamar uma ambulância. Para minha sorte esta veio bastante rápido, mas, o grande bónus foi o estagiário com sede de conhecimento e de prática. Muita sede. Como não conseguiu sentir a minha pulsação (tenho as tensões extremamente baixas verdade seja dita – o meu médico diz que se eu estivesse a dormir me declarava morto, o que é bem provável... ele não é muito bom médico.), achou que estava em paragem cardio-respiratória. O rapaz sequioso como estava decidiu fazer a massagem com muito empenho. Um pouco mais até do que o que era necessário porque me partiu uma costela! Como partir uma costela dói qualquer coisita eu acordei. O rapaz ficou todo inchado de contentamento. O seu primeiro salvamento...até ter percebido que as dores toráxicas eram demasiadas para quem levou com um vaso na cabeça... Ligaram as sirenes e lá fui eu a todo gás para o hospital mais próximo.
Ao passar o cruzamento do LIDL bateram num Renault Clio. Caí da maca abaixo e bati com a cabeça outra vez. Nova perda de sentidos. Nova ambulância que veio socorrer a ambulância e lá vou eu para o hospital mais próximo...outra vez.
O médico que me atendeu perguntou-me o que se tinha pensado, e, eu, contei-lhe exactamente o mesmo que contei a vocês. Ele só me disse: ”são coisas que acontecem”. Não sei porque, mas, isso na altura, não me animou muito – tinha o carro riscado, a cabeça cheia de terra, uma costela partida e umas dores de cabeça que faziam lembrar as ressacas dos tempos de faculdade!
Lá fui para casa de autocarro e quando cheguei meti a mão ao bolso para tirar a chave... e não a encontrei lá. Não a tinha trazido quando desci as escadas a correr. Bati com a cabeça na porta (estúpido acto reflexo) e vi no fundo da porta um fiozinho de água a correr. A água da cozinha! Bati novamente com a cabeça na porta (desta vez com vontade!).

sábado, 12 de maio de 2007

Corvos negros

É triste ter uma semi-existência camuflada de vida.
Agora chega quase a ser natural, já não fazemos aquele esforço para fingir que vivemos e sentimos através de um outro.
É tão bom quando podemos ser nós próprios. Quando as luzes se apagam, deixamos o nosso corpo e gozamos em pleno esta nossa existência eterna.
Se estiverem atentos podem ouvir o bater suave das asas como as dos pássaros aprisionados.
No fundo, é isso que nós somos. Pássaros enjaulados. E batemos as asas e tentamos voar, pairamos no ar.

Presos naquela jaula orgânica. Invólucro desconfortável, privativo dos sentidos e do espaço, que nos prende ao chão com algemas invisíveis.
Escravos. É isso que nos somos. Escravos condenados a vigiar seres insignificantes e sem glória. Velar por eles.
Vagueamos por entre a multidão. Somos aquele que vos fixa sem razão aparente, somos aquele que vos olha de relance. Somos aquele que vos vigia, somos aquele que vos impede. Somos aquele que vos ajuda, somos aquele que vos perturba. Somos aquele que vos inspira.
Amas sofisticadas. Anjos da guarda. Anjos de companhia. Somos corvos negros ansiando a liberdade.

terça-feira, 1 de maio de 2007

O Sr. Nate e o Sr. Benje*

O Sr. Nate e o Sr. Benje eram vizinhos, quer dizer, não eram, ou melhor eram mas sem o serem! Moravam na mesma cidade mas em lados opostos. O Sr. Nate morava na parte fina da cidade, com os seus casarões de séculos passados que apenas se abriam para sangue-azulados. Ou vermelho vivo, vivo como o dinheiro.
O Sr. Benje vivia no extremo oposto como ainda se devem lembrar, numa viela escura a transpirar de trabalho e orgulho. Os caminhos destes dois homens nunca se tinham cruzado até ao dia 25 de Março de 1930, altura em que o destino moveu as suas teias. O Sr. Nate tinha negócios a tratar, e, o Sr. Benje contas para pagar, pelo que embarcaram no mesmo barco rumo a locais exóticos e desconhecidos.
A viagem começou calma, com dias de sol e pouco vento, e, os passageiros aproveitavam para gozar um pouco de sol, sempre resguardados, é claro. Sol em excesso não é bom para ninguém e todos sabiam disso.
O barco era como uma pequena cidade por isso o Sr. Nate e o Sr. Benje ficaram novamente em lados opostos. Um na parte fina e outro na parte... bem, não tão fina! Aqui também não havia misturas, embora todos se cruzassem e apanhassem o mesmo sol de final da tarde, a noitinha todos regressavam para os seus respectivos aposentos. Na verdade, quase todos. Alguns pares de amores escondidos batiam asas mas isso é outra história. Voltemos ao Sr. Nate e ao Sr. Benje!
Ao terceiro dia de viagem o tempo foi modificando e as nuvens foram chegando, chegando devagarinho até se instalarem definitivamente e taparem o Sol por completo. Depois das nuvens chegou a tempestade e essa não foi chegando devagarinho...simplesmente chegou!
Chegou e sacudiu o barco com força, fez subir as ondas e virar o barco. O Sr. Nate caiu ao mar na sua cadeira enquanto lia um dos seus romances, e foi-se afastando assim a flutuar, sentado, debaixo de chuva e trovoada, sem ninguém dar conta. O Sr. Benje ia a correr para o seu quarto (porque nunca tinha gostado muito de trovoada que o fazia ficar com pele de galinha e arrepiava os caracóis da parte de trás da cabeça) e numa sacudidela caiu também ao mar agarrado a um guarda chuva, e, lá se foi afastando. O Sr. Benje abriu o guarda chuva, virou-o ao contrário e subiu a bordo. Passaram dois dias e três horas a navegar em águas desconhecidas até irem desaguar num pequeno monte de areia com algumas palmeiras e um riacho que a atravessava completamente a meio.
Chegaram os dois a ilha quase ao mesmo tempo: um sentado na sua cadeira de descanso a ler um romance e o outro a dormitar sentado no guarda chuva. O Sr. Nate desceu de sua cadeira, olhou em volta, atravessou o riacho e sentou-se numa rocha verde-acinzentada. O Sr. Benje foi a correr atrás dele mas quando tentou atravessar o riacho o Sr. Nate perguntou:
- O que pensa que vai fazer?
- Vou ter consigo, disse o Sr. Benje.
- Ai não, não vai. Este é o meu lado da ilha, respondeu o Sr. Nate enquanto o olhava de alto a baixo. Além do mais eu não me dou com seres da sua espécie, acrescentou sem o olhar nos olhos.
O Sr. Benje ficou tão indignado! Nunca tinha sido tão humilhado na vida. Ele que sempre fora um trabalhador honesto! Deu meia volta e murmurou entredentes:
- Não perdes pela demora!
Cada um fez um abrigo no seu lado da ilha e uma pequena fogueira. O Sr. Benje fez tudo mais rápido mas o Sr. Nate lá se desenrascou. Assim ficaram três dias a andar de um lado para o outro. O Sr. Nate acabou o romance e encontrou um baralho de cartas no seu casaco que resistiu a tempestade e entretinha-se a jogar solitário, o Sr. Benje ia ampliando a casa. Ao fim de uma semana já não fazia obras e o Sr. Nate já não suportava a ideia de jogar cartas sozinho. Ao nono dia foi até ao riacho e gritou.
- Quer jogar uma partida de cartas?
- Quem? Eu? Está falar comigo? Perguntou o Sr. Benje.
- Sim! Vê aqui mais alguém? Quer ou não quer jogar cartas? Perguntou irritado o Sr. Nate.
- Não obrigado. Eu não jogo cartas com pessoas da sua espécie, respondeu o Sr. Benje com um sorriso.
O Sr. Nate olhou-o com um ar de completa admiração e voltou para a sua pedra de jogo. Não houve mais troca de palavras mas não se preocupem meninos, eles não ficaram sozinhos. Um ficou com o ódio, o outro com a vingança.
*conto infantil